Astros que confluem pensamento
vagueiam, vagueiam sem norte
esperando qu’alguém os roube
de sua comediante inépcia.
E vêm como monólogos;
comem-nos fritos miolos
d’incoerente inércia.
Talvez seja algo que não se veja
(Trauma d’infância qu’em velhice retorna
para nos recordar que o eterno poder
finda onde principia a morte
e começa onde termina a lucidez).
Somos vagabundas de cios transversais
ao arquétipo de belo;
conscientes do mal que desconhecem.
Somos vagabundos sem complexos ( às claras )
transversais à ideia de sobrevivência.
Somos o putedo das invejosas almas.
Malgré tout, les misérables entre les pauvres
A inveja criou este Homem,
e o Homem invejou as vestes de Deus
e seu jardim botânico.
Moldou-se condição de ser homem
Onde mil animais pagam bilhete
para ver quadrúpedes sem inveja
e um Deus sem défice de atenção.
E matam-se os animais por inveja!
Por necessidade hão-de matar-se homens
quando deixarem de querer humanidade.
Hão-de culpar os ricos de terem roubado
Hão-de matá-los e violar suas castas filhas
( cujos véus manchados pela glória
se prostram à libido da carnificínica vontade).
E hão-de gostar de ser violadas uma vez
duas vezes, três, até que violarão elas mesmas
pobres que roubaram e assassinaram seus pais.
Hão-de matar quem abusou da sorte de ser lei.
Hão-de fazê-lo com as próprias mãos!
Com as mãos cheias de sangue
hão-de rezar para que o sangue se não termine.
Hão-de voltar a eleger um salvador
e hão-de enriquecer à custa
ininterrupta de suas sombras.
Hão-de matar-se políticos corruptos
Hão-de matar quem merece morrer.
Não haverá juízo-censura de quem
não tem estatuto moral para ajuizar.
O consenso do povo que elege poder
mais moralidade terá para içar,
no pelouro, a égide do exemplo.
Para qu’haja medo d’errar novamente
Para que jamais se erre.
Para que não se volte a pecar.
Para que se volte, de novo, a rezar
pelos pecados de quem já morreu.
Não faltará pensar ao povo
Falta ao povo pensar-se.
Lourenço
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