segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

os abutres

Já paira o Partido Socialista sobre a carcaça do Presidente da República. A campanha de descredibilização do chefe de Estado, bem como o contínuo bombardeamento das relações Executivo/Presidência têm como objectivo a simples exaustão moral e psicológica de Cavaco Silva.
Mais uma amostra do joguinho sujo que a política portuguesa nos tem vindo a habituar, a habitual guerrilha de bancada e o famoso moralismo dos inocentes.
Tudo está nas mãos de Cavaco. Convocar eleições antecipadas e dar a vitória a Sócrates, e mais tarde restabelecer o equilíbrio entre os poderes, ou deixa-lo marinar mais um pouco na chafurdice sindical que corrompe o país e esperar por um resultado eleitoral que trará, obviamente, um crescimento da esquerda radical.
De qualquer das formas, e qualquer que seja a escolha, as coisas não estão com bom aspecto.

domingo, 7 de dezembro de 2008

obrigado Socialismo, Caviar e Reaço

Muito obrigado.
Muito Obrigado a todos os que acham o Café Odisseia presunçoso, convencido, arrogante e pretensioso.
Muito Obrigado pelas críticas enfurecidas, pelos sarcasmos de elevada moralidade e eloquência.
Muito Obrigado por todo amor contido nas lições de democracia e bom comportamento, pelas noções de respeitinho-muito-bonito e pluralismo blogosférico.

O meu grande abraço, não para os que nos lêem nos porões e caves deste país, e espreitam com medo pelas frinchas das Faculdades de Direito esperançosos que nasça o dia onde a sociedade seja mais livre, o governo mais limitado, o Estado menos Socialista/Corporativista, onde o poder político é um sinónimo de dever e empenho social, e que os homens não sejam desprezados pelas suas ambições e pelos frutos do seu mérito e trabalho.

O meu abraço para os que regurgitam de ódio quando nos lêem, aos que consideram este projecto a expressão de todo o nosso egocentrismo. Este projecto não era nada sem o ódio radical dos que o desprezam.
A Marx, a Engels, ao fim das classes, à economia planificada, ao intervencionismo, à distribuição e aos impostos deste país, muito obrigado por todos os temas de escrita.
Às verdades universais, aos manifestantes que não sabem o que protestam, aos furiosos benfeitores do Bloco de Esquerda, aos militantes/militares do PCP, aos saudosistas do PNR, às bichonas, aos machos latinos e às feministas de bigode, a todos os que se levam um pouco demasiado a sério...

Muito obrigado.

Por cá, e falando por mim, vai-se continuar a lutar pela desdogmatização da Constituição, pelo fim do perfilhismo Marxista, pelo combate às facções de extrema esquerda e extrema direita, e a todos os que acreditam que a política se faz com armas e imposições, e o fim do "abrir caminho para uma sociedade socialista".

E quem quiser, que vá lendo.

Fidei Depositium



Se é facto assente que vínhamos guardando silêncio do XVII Congresso Nacional do Partido Comunista Português, não é menos correcto que uma dor aziaga nos impede de prosseguir tão devota quietude.
Importa efectuar umas quantas reflexões. Ser comunista é uma questão de fé. Há muito que o ónus do PCP deixou de ser a actuação política para abraçar o plano supra-racional.
Nas doutrinas marxista e marxista-leninista encontrou o Sacro-Tutor, a Divindade; em Álvaro Cunhal conheceu o Redentor, o Arauto da bem-aventurança; no Alentejo cativou os crentes; na CGTP o Sumo-Sacerdote da Pregação.
Sem rodeios devemos admitir o óbvio: o Partido Comunista está velhinho; vive de militantes demasiado enfraquecidos para enfrentarem os desafios internos ou de geopolítica; cristalizou no êxtase revolucionário e aí cegou (basta ver o incansável apoio de Margarida Botelho ao modelo cubano, que aliás é o único modelo comunista que ainda podem citar – isto se nada perguntarmos a Bernardino Soares a respeito da sua querida Coreia do Norte); não consegue cativar jovens (a plateia envelhecida do Congresso bem o prova). E se estes argumentos não bastarem a algum ouvido mais aguerrido, e se vier a palco a premissa do aumento da mobilização em seu redor, retorquimos: são os naturais refluxos gástricos de uma crise pandémica, é o medo a falar alto e bom som!
Jerónimo de Sousa bem faz propaganda a um Partido Comunista modernizado, porém, o único sinal de modernidade é a gravata que usa (considerada por muitos militantes como objecto herético). Acresce ao exposto a solidão a que o PCP se decidiu votar: nem aperto de mão a Manuel Alegre, ou amizade com o Bloco de Esquerda que, aliás, nas palavras de Jerónimo possui “um carácter social-democratizante, disfarçado por um radicalismo verbal esquerdizante herdado da diáspora das forças que lhe deram origem”.
Uma nota para a eleição do Comité Central, que conta agora com 67 por cento de funcionários do partido, a maioria dos quais não fez outra coisa da vida senão “servi-lo”; mas, neste caso, nada que não aconteça em outros locais.
Como tal, escutemos a Internacional, qual Jesu, Joy of Man’s Desiring, firmes na convicção de que o poder chegará a essas bandas “quando o povo português quiser”.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Rumores de Faca em Riste


O Odisseia tem dispensado algum do seu frémito informativo à frieza das estatísticas. Mais do que desejo de se revelar fiável e fidedigno (que o é!), vontade de mostrar a realidade desnudada, desprovida de adornos vocabulares - roupagem estilística da qual não convém abusar (pelas alminhas dos nossos leitores!). Desta feita, recai a nossa atenção nas estatísticas do Banco de Portugal, concernentes à População e Emprego (últimos 10 anos, por trimestre).
Pelos dados dispensados, verificamos que, de facto, o emprego e a taxa de actividade têm vindo a aumentar, no entanto, o mesmo se verifica em relação ao desemprego (verdadeiramente preocupante na procura de primeiro emprego e de novo emprego); a taxa de desemprego, muito mais elevada nas mulheres, também aumentou. Uma referencia ao gradual aumento da população activa.
Aqui encontram os dados em questão.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

os mariquinhas

Depois do escarcéu que se levantou à volta das afirmações de Manuela Ferreira Leite pelas habituais dondocas da defesa da moral e bons costumes, há mais uma vítima (desta vez internacional) para a polícia do politicamente correcto: Radek Sikorski.
Ao que parece o MNE da Polónia contou a seguinte piada aos seus colegas: "Sabem que Barack Obama tem uma ligação à Polónia? O bisavô dele comeu um missionário polaco."
As maldosas gargalhadas ressoaram pela sala, mas os puros e justos defensores da boa fé não puderam deixar impune esta prevaricação do MNE racista.
Como se pode ver no Sol:

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

"Tirem os chapéus, senhores. Ele é um génio!"

Em Intermitências da Morte, Saramago faz uma breve referência a Chopin:

“Um dia, em conversa com alguns colegas da orquestra que em tom ligeiro falavam sobre a possibilidade da composição de retratos musicais, retratos autênticos, não tipos, como os de samuel goldenberg e schmuyle, de mussorgsky, lembrou-se de dizer que o seu retrato, no caso de existir de facto em música, não o encontrariam em nenhuma composição para violoncelo, mas num brevíssimo estudo de chopin, opus vinte e cinco, número nove, em sol bemol maior. Quiseram saber porquê e ele respondeu que não consegui ver-se a si mesmo em nada mais que tivesse sido escrito numa pauta e que essa lhe parecia ser a melhor das razões. E que em cinquenta e oito segundos chopin havia dito tudo quanto se poderia dizer a respeito de uma pessoa a quem não poderia ter conhecido.”

Oiçamos tão agradável estudo:

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

como as greves vão manter Sócrates no poder

O aumento do número de greves, a actividade excessiva dos sindicatos, movimentos grevistas e partidos da extrema esquerda têm levantado em alvoroço as ruas e cidades do País e criado uma ruidosa sensação de fúria contra-governo.
Estas greves da função pública, num país que tem vindo a ser ensinado a odiar os representantes dos serviços prestados pelo Estado , tem as suas consequências na estabilidade política da República, e já têm exigido do Chefe de Estado algumas chamadas de atenção para os ânimos exaltados.
O motim da função pública e dos funcionários do Estado, bem como a crise económica que se aproxima amarguradamente para o ano de 2009 (a ver pelo OE) podem, em caso de paralisação total, resultar na necessidade de convocação de eleições antecipadas.
No caso especial dos professores e da rebelião das escolas, a situação assemelha-se a um cenário dos Balcãs. Hoje, assistimos às greves conjuntas dos correios e dos transportes públicos, e outros sectores menores.
O cansaço geral da população das permanentes greves e de todas as exigências sindicais, bem como o esforço propagandista do governo em diabolizar os professores perante a opinião pública darão, em caso de eleições antecipadas, uma maioria a Sócrates.
Nada melhor para o actual Governo que uma oportunidade de se legitimar aos olhos dos portugueses e ganhar uma folga para os anos de crise que vêm aí.
Caso isso aconteça, vai continuar a burocratização da Educação, o aumento da despesa pública e o engordar da nomenklatura que rodeia o governo.
Como o PCP e os comunistas juniores vão continuar a acicatar o reboliço ridículo das escolas, a única esperança da Direita em Portugal, ainda em regime de alternância e não de alternativa (infelizmente), está no silêncio de um homem: Mário Soares. Caso este continue a falar contra o actual governo e de forma mais veemente ao manifestar o seu apoio aos sectores opositores do PS, pode ser que a batata quente caia, inevitavelmente, no colo de Cavaco...

gente grada

"Era fatal que, estando em risco a fortuna de tantas figuras gradas e de tantas respeitáveis instituições, o BPP "tinha" de ser salvo, apesar da sua irrelevância no sistema financeiro e na economia real (como aqui se registou)...
Para falar só nos grandes accionistas, quanto é que Rendeiro, Saviotti, Balsemão, Vaz Guedes e Cia. -- que vêem o banco e o seu próprio cabedal salvos da falência -- ficam a dever à diligência de Constâncio para encontrar uma solução e à disponibilidade do Governo para dar o aval do Estado à operação de resgate do BPP por vários bancos comerciais?
O mínimo que se pode exigir, a bem da transparência, é a divulgação de todos os pormenores da solução encontrada e, já agora, da identidade dos felizes contemplados com esta antecipada prenda natalícia..."

Vital Moreira no Causa Nossa

sobre o 25 de Novembro

vO que eu aprendi aqui depois de me ter arrependido de escrever isto.

"Desde cedo, o estado socialista começou a seduzir a direita para o harém do regime: o Orçamento Geral do Estado. Lugares almofadados na administração pública para tecnocratas, pareceres faustosos para escritórios de advogados e negócios faraónicos para empresários, eis o que o harém tem oferecido à direita desde 1975. E a direita vive numa condição de inferioridade moral e ideológica porque aceitou ser comprada. Várias colecções de advogados e empresários gostam de dizer que são de direita em tertúlias pós-laborais, mas, entre as 9 e as 5, adoram espreguiçar-se à sombra do estado socialista imposto pelo 25/11. A promiscuidade entre negócios e política - a marca do regime - tem a sua raiz profunda em Novembro de 1975."

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Oficial e Indigesto



O National Bureau of Economic Research (NBER) é uma organização privada Norte Americana, sem fins lucrativos, que tem como objectivo o desenvolvimento da Economia, bem como a sua difusão pelo meio político, empresarial e académico. Data a sua fundação de 1920. Dispôs nas suas fileiras de dezasseis Prémios Nobel da Economia. Conta, actualmente, com o apoio de mais de um milhão de economistas.
Emitiu ontem (dia 1de Dezembro) um relatório que oficializa o que, há muito, se especula: os EUA encontram-se em recessão desde Dezembro de 2007. Como refere o relatório, nesse mês foi alcançado o óptimo (peak) de produtividade, dando início a uma queda ininterrupta da economia. Ora, esse óptimo dá por terminado o período de expansão iniciado em Novembro de 2001, um intervalo de 73 meses, visivelmente inferior ao ciclo económico expansivo anterior (120 meses – década de noventa).

O relatório é relativamente acessível, portanto, aqui fica o endereço.

A Cruz de Giz





Deixo-vos a seguinte passagem do judeu Shylock na peça Mercador de Veneza, de William Shakespeare. Se a peça é considerada anti-semita, neste trecho, unicamente neste trecho, faça-se justiça, o judeu é-nos apresentado de uma forma particularmente tocante:

“Não tem um Judeu olhos? Não tem um judeu mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afectos, paixões; (Não é) alimentado com a mesma comida, ferido pelas mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e arrefecido pelos mesmos Invernos e Verões que um Cristão? Se nos picam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? E se nos fazem mal, não nos vingamos? Se somos como vós no resto, assemelhamo-nos a vós nisso. Se um Judeu faz mal a um Cristão qual é o seu castigo? Vingança. Se um Cristão faz mal a um Judeu qual deveria ser o seu castigo pelo exemplo Cristão? Pois, Vingança. A vilania que vocês me ensinam, eu executarei, e vai ser duro mas eu hei-de superar a instrução.”

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

1 de Dezembro: O Rei É Livre, Nós Somos Livres, Nossas Mãos Nos Libertaram



"Rei tendes tal, que, se o valor tiverdes

Igual ao Rei que agora alevantastes,

Desbaratareis tudo o que quiserdes,

Quanto mais a quem já desbaratastes!

E, se com isto, enfim, vos não moverdes

Do penetrante medo que tomastes,

Atai as mãos ao vosso vão receio,

Que, eu só, resistirei ao jugo alheio.


"Eu só, com meus vassalos e com esta

(E, dizendo isto, arranca meia espada),

Defenderei da força dura e infesta

A terra nunca de outrem sojugada!

Em virtude do Rei, da Pátria mesta,

Da lealdade já por vós negada,

Vencerei, não só estes adversários,

Mas quantos a meu Rei forem contrários."


As Palavras do Condestável, Canto IV, Os Lusíadas de Luís de Camões


A Ler - A carta de S.A.R. Dom Duarte de Bragança, hoje e sobre este dia, publicada no Unica Semper Avis.

easy, giver!


O Pedro explicou, ponto por ponto, algumas das suas afirmações em textos anteriores, e eu já posso considerar algumas delas.
Penso que quanto aos colarinhos brancos não podíamos estar mais de acordo do que já estamos.
Depois, com a conversa dos empréstimos e das famílias é que a coisa vai descambando.
Por muito que pareça imoral que o Estado entregue dinheiro a bancos, a verdade é que não o é de todo, Pedro. De facto, os Bancos Centrais servem originariamente para isso, para manter o sistema a funcionar, injectando somas de tempos a tempos, fiscalizando e regulando os bancos. Como se sabe, foi a fiscalização e regulação que falhou no BdP, mas infelizmente eles não podiam nem podem fazer muita coisa, visto que o poder económico já estava, e agora ainda está mais, directamente dependente do poder político, e ninguém ia pensar que socialistas e social-democratas seriam capazes de falcatruas (como se sabe, só os liberais fazem coisas dessas).
Depois há o erro número dois, que é o de distribuir os 45 milhões pelos portugueses, que mesmo sendo uma figura de expressão, exprime uma triste figura. As razões porque os Governos não distribuem o dinheiro pelas pessoas para elas pagarem os empréstimos são muitas, económicas e sociais. As económicas prendem-se com o funcionamento do mercado e com a legalidade jurídica de tal acto, as sociais prendem-se com a esfera de intervenção e para com as funções do Estado dentro da Economia.
O que o Estado podia fazer era suavizar a carga tributária dos portugueses, de acordo com os limites que a Economia tem vindo a ser submetida desde o início da crise (aproximadamente desde Outubro deste ano). No entanto, há que ter o cuidado de não recompensar o excessivo gasto e a falta de poupança. É de uma perigosa inocência sequer propor ao povo que os milhões que são salvos para salvar a banca seriam melhor usados se distribuídos pelos portugueses, porque o efeito seria precisamente o contrário. Em épocas de crise como estas a intervenção estatal tem de ser mais inteligente, mais do que está a ser, e acima disso poupar, por forma a poder diminuir os impostos dos cidadãos e aumentar-lhes o poder de compra, diminuindo as situações de injustiça. Para isso tem de haver, sem dúvida, menos corrupção, menos obras públicas, menos Estado Providência e mais estado social, que filtre as atenções da sociedade nos casos individuais que pedem a ajuda e aconselhamento fornecidos pelo Estado. O dinheiro investido nos bancos para salvar o Sistema deve gerir-se pelos seguintes critérios: os bancos deverão pagar com juros o dinheiro que a República lhes fornece, e os bancos nacionalizados deverão ser vendidos logo após a crise de forma a que a República lucre com esses negócios.

Vidas Cruzadas (título novelístico de uma história de tachos)


Tentando, agora, desenvolver um pouco mais a minha opinião manifestada previamente, digo o que pretendi apontar com "concedem-se avais a colarinhos brancos".

Manuel, não entendeste o que eu quis dizer?! Pois bem, apresento algumas histórias de vidas cruzadas. Como são alguns os gajos, sigamos com um ponto dedicado a cada um.

1- Horácio Roque: Distinta figura do sistema bancário/financeiro (chamem como queiram), presidente do Banif, além de benemérito é, grande espanto, suspeito de várias irregularidades, investigadas no âmbito da Operação Furacão. "Fraude fiscal, utilização de facturação falsa e branqueamento de capitais, com recurso a sociedades offshores". Confrontado, responde o que qualquer inocente responde: "uma actuação normal, que as autoridades têm o direito e o dever de fazê-lo".
Ora, o Benemérito Comendador veio esta semana dizer que o Banif poderia vir a usar "800 a 900 milhões de euros" do aval do Estado. Hum...se tão tivesse lavado tanto os seus colarinhos, não bastariam uns milhões a menos?
Esclareço só que o título Comendador é dado pelo distinto Presidente da República. Já o de Benemérito cabe-me a mim, dado o papel activo que a sua Fundação desempenha nas áreas da educação, social e cultural. Sabiam da existência desta Fundação? Eu não fazia ideia, mas admito que prefiro estudar na FDUP por 1000 euros/ano.

2- Os Homens do Presidente: Começando por Oliveira e Costa, pôde visitar a terra dos justos esta semana. Sobre este não me demoro muito.
O meu preferido, Dias Loureiro, digno senhor de confiança do Sr Presidente. Culpado? Jamais! Como sabe? Perguntei-lhe e ele disse-me que não era. Ainda tentei dizer aos meus amigos que nunca bebi na vida e que, havendo vídeos provando o contrário, não sou que eu lá estou, mas acho que não acreditaram. Mas eu não fui Ministro.
Já agora, permitam-me esclarecer que foi esta distinta figura que, quando o povo decidiu manifestar-se na Ponte 25 de Abril, achou que, invés discutir com o povo, o eterno reclamante de misérias, era preferível solicitar o magnífico serviço das forças policiais. Sem adornos, mandou correr com eles á paulada.

3- Rendeiro: Com este senhor sou mais brando. Chega ao fim da situação e correm com ele...é a justiça do Júdice. Mas aqui é secundário isto, o que é relevante é que o Banco de Portugal está a investigar umas queixas por actos de gestão da administração Rendeiro. O curioso (espantem-se novamente!) é que as queixas datam do período em que o banco não tinha dificuldades. Mas o muito solícito e sempre vigilante Vítor Constâncio lá disse à Judite que se arranjavam uns 45 milhões.
Manuel, neste banco de fortunas, que concordas não precisa de ajuda nenhuma, 45 milhões é para a sua administração nada. Todavia, a minha mania das matemáticas levou-me a umas contas que, creio, são melhores que guterreanas: 45 milhões, com o empréstimo médio das famílias portuguesas de 100 000 euros, permitia pagar cerca de 450 casas. hum...acho que prefiro ver esse dinheiro no auxilio imediato ao pagamento das dividas das casas dos portugueses (olha que estamos a falar de classe média). Nota só que estes 45 milhões que permitiriam isto, foram vergonhosamente desdenhados pelo BPP.
Por esta hora, o Alves dos Reis deve andar inconsolável.
Como as minhas palavras não tinham sido, ao que parece, as mais objectivas, acho que, neste quesito estas vêem dissecar as últimas.

Antes de concluir, que é isto senão White-collar crime?! Assim como se quer ser verdadeiro com a crise, gerada por Marxistas (dizem os colunistas de sábado), sejamos também agora.

A verdade é que, como os Coldplay, sei que o São Pedro não me vai chamar, sou tudo menos politicamente correcto.


Abraço.

O Vício Da Poesia

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amar sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond De Andrade


Numa semana de Amor, esta idónea a altura de partilhar o meu poema preferido, poema tantas vezes por mim referido (se prestam atenção ao que digo). Enfim, entendi que em vez de apenas ter deixado nas vossas mentes algumas expressões, o amor merecia esta distinção.

Abraço.

como se disse um dia...

Quando alguma coisa mexe, o Estado tributa-a; se, ainda assim, continua a mexer, o Estado regula-a; quando finalmente deixar de ter qualquer movimento, o Estado subsidia-a.”

Ronald Reagan

domingo, 30 de novembro de 2008

A Ler - Henrique Raposo, Marxismo e Globalização, EUA e Europa

O muro caiu em 1989. Mas o muro não caiu nas universidades portuguesas. Os marxistas portugueses que defendiam a URSS e outros regimes similares permaneceram nos departamentos de humanidades, e continuaram a fabricar mentiras. Além de não assumirem os seus erros históricos, os nossos marxistas contribuíram para a propagação da maior mentira dos últimos 20 anos: a globalização é horrível porque enriquece o Ocidente e empobrece o Resto do Mundo. Esta mentira foi a base de muitas disciplinas académicas durante os longos anos 90 (1989-2008). Como se sabe, a dita globalização enriqueceu o Resto do Mundo e retirou poder relativo ao Ocidente. E, hoje, mais uma vez, os marxistas não admitem que andaram a mentir durante duas décadas. Porquê? Porque já estão a inventar o embuste dos próximos 20 anos: a actual crise, dizem, justifica o regresso de Marx. Os marxistas são assim: saltam de mentira em mentira, tal como um sapo salta de nenúfar em nenúfar.


e há duas semanas atrás...

Se a América tem Estado a menos, a Europa tem Estado a mais. Por isso, os excessos libertários nos EUA não podem legitimar a continuação dos excessos estatistas na Europa. Neste sentido, vale a pena ler 'O Futuro da Europa - Reforma ou Declínio' (Edições 70). A mensagem de Alberto Alesina e Francesco Giavazzi é clara: se os europeus não fizerem reformas liberais, a Europa continuará em declínio. A crise de Wall Street não anulou este raciocínio.

Pólvora Seca

Segundo a Human Rights Watch (uma das ONG mais empenhadas na defesa dos Direitos do Homem), aproximadamente 300 000 crianças são utilizadas em conflitos armados (como soldados, correio, escravas), sobretudo na Ásia e África (Iraque; Sudão; República Democrática do Congo; Chade; Nepal; Uganda; Sri Lanka; Somália; enfim, a lista é extensa). Estas crianças são subtraídas às famílias a partir dos oito anos de idade, por rapto ou venda. Torna-se, então, necessário quebrar os laços que os unem ao passado, é fundamental desumanizá-los. O processo adoptado é conhecido: mistura de heroína, anfetaminas, e pólvora. Se as anfetaminas e a heroína os tornam dependentes (física e psicologicamente), já a pólvora provoca, a curto prazo, lesões cerebrais irreparáveis, uma amnésia induzida. Estamos perante crianças desprovidas de ânimo, autómatos ao serviço de guerrilhas violentíssimas, financiadas pelos rendimentos da produção de droga (pensemos nas FARC, ou nos laboratórios de síntese de heroína no Afeganistão).
Ano após ano, a Human Rights Watch vem denunciando esta situação aviltante. Um exemplo a ter em conta é a Red Hand Campaign.


Para mais ampla compreenção do problema, vejam o seguinte mapa:




já visto - Blindness


Sem querer ser redundante, Blindness foi, para mim, apenas um Livro de Saramago adaptado para Cinema.
Não considero dinheiro perdido, mas o resultado pretendido era tão óbvio que não surpreendeu.
No entanto, ficam os parabéns à equipa e ao elenco, que foi, do princípio ao fim, brilhante e sentido. Não houve uma única altura em que se percebesse uma pontinha de falta de inspiração ou falta de empenho.
No entanto, de acordo com o objectivo do Livro, fiquei um pouco desiludido com o fim. Demasiadas pontas soltas. Até parece que andava, no fim, a pedir sequela desenvergonhadamente...

O Lápis Azul

"A esse respeito, Hymie era escrupuloso. Desagradava-lhe sobretudo a maneira como Curley falava da tia. Na opinião de Hymie já era mau ele andar a fornicar com a irmã da própria mãe, mas falar dela como de um queijo cediço, isso passava das marcas. Devia ter-se um certo respeito por uma mulher, a não ser que se tratasse de uma puta. Se se tratava de uma puta, era diferente. As putas não eram mulheres: eram putas. Assim via Hymie as coisas."

Henry Miller, Trópico de Capricórnio.




"Cuba em plena construção do socialismo era de uma pureza virginal, de um delicioso estilo inquisitorial."

"Aquela de que eu mais gostava era de uma que ela tinha na virilha esquerda. Era uma flecha a indicar o sexo e uma frase que dizia apenas: DESCE E GOZA. Numa das nádegas dizia: SOU DO FELIPE, e na outra: AMO TE NANCY. No braço esquerdo. em grandes letras tinham-lhe tatuado: JESUS."

Pedro Juan Gutiérrez, Trilogia Suja De Havana

Abraço.

sábado, 29 de novembro de 2008

Transversal Viagem




Cegos? Eternos cegos somos nós, Portugueses?! Ignorantes, egocêntricos, hipócritas! Num permanente obscurantismo visual, fechados em nós mesmos?!

Abramos um jornal -reprodução mental-, pois nunca a comunicação social denuncia de forma independente, desinteressada:
Índia...bombardeiros de Deus marchando sem nada a perder;

China...Escravos de misérrimos prazeres;

Rússia...hipocrisia escondida atrás da eterna cortina;

EUA...

Brasil...marcham os sem terra, levam consigo o estigma, desejando somente dignidade;

Venezuela...um louco Zaratustra que dez vezes ao dia ri, mas que tantos milhões seus faz "chorar";

Cuba...um "silencioso" socialismo triunfante;

Sudão...terra de "Mães do Cativo" sem o vislumbre de um paradisíaco mísero segundo de paz no seu oásis

"And I think to myself, what a wonderful world".

Passa esta masturbação mental e chegamos ao apêndice Nacional.

Aí, professores criticam, criticam, mas nem eles ou loucos líderes discutem as quase já obsoletas dúvidas da qualidade do ensino; a eternos colarinhos brancos se concede avais para não deixar cair o sistema, tão importante quanto as casas de famílias por pagar; a pedófilos clamantes de inocência se lhes mudam as leis; sidosos (seropositivos, em portugal, é proibido falar, senão seriam pessoas) vão tentando viver sem que possam tomar remédios tão essenciais (nem uso dizer mais) quanto as insulinas e os viagras dos políticos; a alunos se exige competências que a escola não ensina (e ou aprendes ou vais para a ultima casta);pais de família não recebem avais, pois foram imprudentes e quiseram ser um pouco mais de rendimento com acções ("nem todos podemos ser ricos"); capitalistas, essa corja auto denominada, em Portugal, de liberal, desculpabilizam-se com a inércia (e inépcia) dos governos, a desregulação e o desejo de uma vida modesta de milhares de famílias.

Portugal, quanto a ti, "I did it my way".

Além do eterno futebol, haja tequilla, sexo, marijuana.

Abraço.

Totalistarismo a Technicolor

Data de 1941 a fundação da Organização não Governamental Freedom House. Resultado do empenho de académicos, advogados, jornalistas, entre outros elementos activos da sociedade norte-americana da época. A premissa era, e continua a ser, simples: defender os direitos fundamentais quando postos em causa, salvaguardar o indivíduo das ingerências dos regimes ditatoriais (autoritários ou totalitários). Ou seja, a Freedom House, enceta uma luta pela democracia, pela democracia alicerçada no Direito (Estado de Direito Democrático). Citando o seu manifesto “Freedom is possible only in democratic political systems in which the governments are accountable to their own people; the rule of law prevails; and freedoms of expression, association, and belief, as well as respect for the rights of minorities and women, are guaranteed.”
Expressou a sua oposição e realizou acções de sensibilização na África do Sul (apartheid), na União Soviética, Sudão, Arábia Saudita, Irão, entre outros Estados. Atentemos, à última frase do seu manifesto: “Freedom House functions as a catalyst for freedom, democracy and the rule of law through its analysis, advocacy and action.”
Vejamos o Map of Freedom, recentemente disponibilizado:


Querem Poesia?


A Mãe Do Cativo

I

Ó Mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.

Ó Mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.

Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo...

E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da esperança...Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria!...

II

Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo;
Pra qu'há de sondá-lo...Que morra sem luz.

Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho- desonra, misérias,
A vida nos crimes- a morte na dor.

Que seja covarde...que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptil.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.

Arranca-o do leito...seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida- só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte- só cabe-lhe o roto lençol.

Ensina-o que morda...mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.

Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça co'o sono de um cão.

Criança- não trema dos transes de um mártir!
Mancebo- não sonhe delírios de amor!
Marido- que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor!...

São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.

III

Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.


Castro Alves.

Uma pequena nota para explicar a imagem que seleccionei. Preferia ter apresentado o poema Navio Negreiro de Castro Alves, porém a sua dimensão considerável o inviabilizou. No entanto, fica a indicação.
Abraço

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Reflexões sobre Socialismo Moderno e Antigo


A expressão mais usada e acarinhada por alguns autores deste blogue, visto que não posso falar pelo Pedro que ainda não a utilizou, é a já odiada e famosa "Socialismo de Miscelânea".
Nas minhas conversas com alguns colegas da faculdade de Direito noto uma certa hostilidade para com o blogue por causa do uso desta expressão, que eu considero uma das obras primas da larga imaginação do Jacob, hostilidade essa que é em tudo injusta e ao mesmo tempo furiosa, por envolver uma forte estocada naquele mito estudantil português do socialismo enquanto solução económica, social e jurídica para todos os problemas, e manancial de boas acções e boas políticas para a "libertação do povo oprimido".
O Socialismo de Miscelânea não é, a meu ver, algo muito específico e digno de definição. Não merece, e não quer, uma definição enciclopédica, é uma expressão de gozo para com o excesso de zelo regulador de alguns governantes e as ideias ultrapassadas de alguns oposicionistas que, demarcando-se do Marxismo- Leninismo ou só do Comunismo, vão caindo na tentação de misturar alhos com cenouras e criar uma nova teoria política, susceptível a tecnocracias e a políticas de "pronto-a-vestir".
O Socialismo, se o pudermos definir em termos básicos, advoga a estatização ou colectivização dos meios de produção e da propriedade privada de um Estado, em diferentes níveis de gravidade, de forma a contrariar as tendências capitalistas da sociedade de classes onde a riqueza se acumula nas mãos de poucos. Implica um intervencionismo de Estado muito forte, assente em dois pilares igualmente poderosos e muitas vezes conflituosos entre si, o Intervencionismo Social e a Racionalização Económica.
No entanto, ao mesmo tempo que há várias formas de chegar ao Socialismo, há também muitas formas de o fabricar. Fala-se em nacionalizações, outras vezes em colectivizações, outras em controle apertado do Estado sobre a produção e sobre a iniciativa privada.
E isto é só o início, podia-se discorrer mais sobre o Socialismo Libertário, que que não reconhece o Estado no controle da economia, mas sim a Colectivização Descentralizada, assumindo na maior parte dos casos um carácter federalista à maneira de Antero de Quental.
É portanto um erro considerar o Socialismo um caminho para o Comunismo per se. Antes de se falar em Comunismo nos moldes actuais (Marx e Engels) já existia o socialismo, desde 1830, aproximadamente. Muitos políticos socialistas apareceram na Europa e governaram os seus respectivos países com ideias socialistas, por exemplo as de Saint-Simon que tanto sucesso tiveram em Portugal em certos sectores políticos do tempo da Monarquia Constitucional , e o Socialismo deu origem posteriormente a teorias como o Comunismo e o Anarquismo de Bakunine.

Hoje em dia, além da amálgama (ou miscelânea) maioritariamente marxista-leninista do Bloco de Esquerda, podemos encontrar no PS alguns vestígios de socialismo antigo (representado por alguma velha escola, como Manuel Alegre). No entanto, a progressiva queda para a Social-Democracia (até então considerada uma ideologia de Direita em Portugal, sendo que o principal partido de Direita é Social-Democrata) e o afastamento de alguns preceitos mais rudimentares das economias colectivistas o inserem no clube dos partidos capitalistas.
Assim, em jeito de aconselhamento aos colegas e leitores e amigos mais confusos, para quem socialismo é sinónimo único de caridade social e Estado Social (que não é, basta notar que o principal jurista do Liberalismo, Hayek, também defende o papel do Estado na Economia), sugiro uma leitura mais despreocupada e menos convencida da superioridade moral de algumas ideias.
Se, de facto, o Liberalismo ultrapassou em duração e eficiência, bem como satisfação dos povos e dos direitos humanos, todos os resultados alguma vez conseguidos pelo Socialismo, há, para os que se mantêm firmes na ideologia socialista com toda a justiça e tolerância, um enorme leque de escolhas e políticas a abraçar ou intelectualizar. O que precisa desaparecer é a visão do Socialismo como uma espécie de sonho utópico anunciante da Boa Nova. Nada de impraticável se apresenta na ideologia do Socialismo.
De facto, o maior inimigo do Liberalismo nunca foi o Socialismo, mas antes as consequências da sua prática...

para ver, Tribuna Socialista.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Cidade Queimada

O Odisseia oferece, a quem o quiser ler, alguma poesia seleccionada. Fiquemos com o Navio de Espelhos, de Mário Cesariny (parte da obra Cidade Queimada):

O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

E pela voz do próprio:

Poesia no Café

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Luís de Camões

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Tomai Lá do O’Neill!


Açambarco a Alexandre O’Neill a expressão “uma coisa em forma de assim”, pois cabe tal uma luva para descrever o possível Executivo Obama. Quando Hillary, após a derrota nas primárias, passou a apoiá-lo, obviamente, tinha algo em mente que não a vice-presidência. Ora, mais não era que o cargo de Secretária de Estado e, resolvido o problema das dívidas de campanha (uns quantos e constrangedores milhões), tudo indica que sucederá a Condoleeza (que já seduzia, em olhares discretos, a nova Administração). Tendo em conta as suas posições em política externa, que em muito se aproximam de Mccain, os Republicanos tem dificuldade em esconder o sorriso. Aliás, depois da bela campanha anti-Obama de Hillary, não é sem ironia que tomará posse. E falando em Mccain, uma nota para a reunião, na passada semana, com o recém-eleito Presidente, com o fito de discutir possíveis parcerias num futuro bem próximo.
A influência Clinton não pára por aqui: Eric Holder (alto cargo da justiça na Presidência de Bill Clinton) tomará a pasta da Justiça; John Podesta (antigo Chefe de Gabinete) na chefia da equipa de transição; Rahm Emanuel para Chefe de Gabinete; Greg Craig, advogado de Clinton, representará também a Casa Branca.
Por fim, até ver, Robert Gates continuará a chefiar o Pentágono. Mesmo sendo Republicano, pela sua inegável competência, Obama não se permitiu substituí-lo.
Feitas as contas, dispomos de uma senhora que poderá colocar em risco a política externa, pelo menos a prometida em campanha; quatro homens da sua influência; e um Republicano.
Um belo resultado que deixou milhões de obamaniacos” (termo curioso para uma singular afecção), essa carneirada que se deixa enganar por meia dúzia de patranhas melífluas, e um marketing, inegavelmente, eficaz; numa situação de desconforto. Perguntam, em pranto, “Mas onde estão os progressistas?”. Eu respondo: na vossa imaginação, meus caros! Alexandre responderia: “Tomai lá do O’Neill!”.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Sensibilização Pública

"2008 tem sido um ano negro da violência doméstica em Portugal. Homicídios e tentativas de homicídio ultrapassam os números dos últimos 5 anos. Apesar de toda a consciencialização social, os dados apontam para um agravamento do problema. Urge, pois, enfrentá-lo com respostas mais eficazes.

Neste sentido, a UMAR lança agora uma campanha dirigida aos homens para estes se solidarizarem com as vítimas de violência, retirarem o apoio aos agressores e se demarcarem publicamente dos seus actos.

A campanha “Eu Não Sou Cúmplice” tem o objectivo de mobilizar as energias masculinas para esta batalha dos direitos humanos que está longe de estar ganha.

Os homens abaixo-assinados repudiam toda e qualquer violência contra as mulheres, comprometendo-se na consciencialização e intervenção social da sociedade para a igualdade de género e promoção de uma cultura de não violência.

Os homens abaixo-assinados apelam a todos os homens que não sejam cúmplices e testemunhas passivas da violência contra as mulheres."

assine a petição aqui


in Torreão Sul

um 25 a não esquecer


Dia 25 de Novembro de 1975 deve ficar fincado na memória nacional como o dia em que as forças democráticas moderadas enfrentaram as forças radicais de extrema esquerda e venceram.
O golpe militar, planeado por forças pró-comunistas que planeava tomar a Base Aérea de Tancos com a ajuda de um regimento de pára-quedistas e assim desequilibrar o apoio que o Exército dava, na generalidade, à facção democrática, e assim consumar o caminho ideológico que o País seguia nesses Anos Quentes.
PS, PSD e CDS, bem como o Grupo dos Nove e a Igreja Católica, consumaram o esforço conjunto para controlar os rasgos totalitários do PCP, do COPCON de Otelo e dos restantes grupos Marxistas-Leninistas.
A união de uma facção, em contraste com a divisão e incerteza presente na outra, deu a vitória aqueles que, provavelmente, eram os mais improváveis de sair vencedores.

Se o 25 de Abril de 1974 é o Dia da Liberdade, o 25 de Novembro de 1975 merece, claramente, o epíteto de Dia da Democracia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

desenhar políticas, ou "Quem regula os reguladores?*"


* título tirado daqui

A Ler: Solidariedade

A oposição liberal ao Kremlin, que não está representada no Parlamento russo, reuniu-se hoje numa conferência para criar um novo movimento político, que se deverá chamar Solidariedade.
A realização desta conferência fez lembrar o jogo do “gato e do rato”. O local da realização da conferência era secreto para que as autoridades não conseguissem impedir a sua realização, como fizeram no passado dia 02.
Entre os delegados estavam representantes de vários partidos da ala liberal russa, bem como dirigentes de organizações não-governamentais e de defesa SOS direitos humanos.
Os participantes da conferência elegeram delegados que irão, num congresso a realizar a 13 de Dezembro, constituir o novo movimento Solidariedade.
“A Rússia precisa de um movimento político como a Solidariedade dos anos 80 na Polónia”, defendeu Iachin.

in Da Rússia

domingo, 23 de novembro de 2008

Reflexões sobre Liberdade Religiosa


Quando se discute a posição do Estado em relação às comunidades religiosas, costuma-se invocar o principio da laicidade como principio definitivo do Estado de Direito.
Fala-se assim em Estado Laico, como o Estado que não avalia os seus cidadãos nem os discrimina em função da sua religião. Este principio, no entanto, pode funcionar em várias vertentes e para várias culturas do Direito e da Liberdade.

Estado Laico, no entanto, não é o mesmo que Estado "Laicista", ou de ideologia "laicizante" dos cidadãos. Viola-se a neutralidade do Estado para com as escolhas religiosas dos seus cidadãos quando se proíbe ou se impõe entraves ao culto ou estudo ou profissão de uma religião. O Estado Português produto da Revolução Republicana de 5 de Outubro e da Constituição de 1911, devido à carga ideológica radical dos partidos dominantes e da própria Constituição, era altamente anti-clerical e anti-religioso, violando princípios básicos e liberdades consideradas garantidas e seguras que já vinham de tempos até anteriores às primeiras Constituições Monárquicas. Neste caso não podemos considerar que estivemos na presença de um Estado Laico, visto que estávamos perante uma atitude frente à religião que pode até ser considerada dogmática, o ateísmo militante. Contrariando assim o verdadeiro objectivo do ateísmo, partilhar livremente uma vida sem religião e Deus e mesmo assim valiosa e repleta de significado intrínseco, os republicanos do 5 de Outubro, que ainda andam por aí, criaram outra religião, a religião da opressiva ausência de Deus, o Ateísmo Divino.

Como remate deste texto, fica uma pergunta teórica para os leitores: Será que a presença de uma religião oficial inibe a formação de um Estado Laico?
Podemos assim considerar que o Estado Português, durante o período de vigência da Constituição de 1826, era um Estado sem liberdade religiosa e cuja cidadania era defendida pelo Estado de acordo com a sua religião? A resposta, obviamente, é não.
O Reino da Jordânia, que considera na sua Constituição o carácter oficial do Islão enquanto religião oficial do Estado, é uma terrível ditadura "ayahtolla" intolerante? A óbvia resposta é não. É talvez a nação de cultura islâmica mais tolerante, tendo muitos menos problemas com as diferentes comunidades religiosas que a Turquia "laica".

A oficialidade de uma religião prende-se ao perfil cultural de um povo, de uma nação, de uma história. Isto deve-se ao simples facto de a Religião, para todos os efeitos, ser ela própria um dado cultural, inserido dentro dessa enorme miscelânea que costumam ser as civilizações.

Podemos assim esquecer a típica definição de Estado Laico como estado não-oficial. As hipóteses de um cidadão ser reprimido pelas suas escolhas religiosas num Estado Laico de inspiração Ocidental são tantas como num Estado Islâmico, o que muda é o contexto histórico em que se está inserido. No tempo em que as repúblicas jacobinas francesas e portuguesas privavam os homens livres do seu culto original, essas mesmas nações e povos islâmicos, entre eles a Turquia, davam boas provas de civilidade à Europa.

A Liberdade Religiosa e o Estado Laico medem-se assim, só e puramente, pelo grau de intervenção do Estado nas Igrejas e Cultos e o grau de afectação que toma em relação a estes.

nota: foi feita uma pequena modificação no texto, na parte que revela o objectivo do ateísmo. A exposição do mesmo tinha, devido a um erro de linguagem, uma conotação negativa. A nova versão, pelo menos intencionalmente, suprime-a.

Défice de Honestidade

Ao invés de aplaudirmos actual Governo pela redução do défice público, devemos ter em linha de conta as variáveis alteradas para a prossecução de tal objectivo populista (objecto hermético). Variáveis que muito raramente são referidas. Vejamos o seguinte quadro, respeitante ao lapso temporal 2004-2009:


Podemos ver que, para além do crescimento económico inexistir, o rendimento por habitante decaiu mais de um por cento; o endividamento da economia é preocupante; a carga fiscal aumentou (a nível comunitário ainda sobra margem para aumentos); bem como o desemprego. O despesismo e a falta de investimento (investimento consciente e empenhado no progresso, não obras públicas, as eternas obras de Santa Engrácia!) merecem particular enfoque.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

No Reino dos Sindicatos...

cada vez mais me pergunto se ter representação sindical, em certos casos, traz efectivamente benefícios para certas classes de trabalhadores...

Praetor Maximus



"Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia". Discursava Ferreira Leite como convidada na Câmara de Comércio Luso-Americana. Poucas horas decorreram é já a celeuma é bastante. Todavia, poderá ser o escândalo mais de companhia (como em Lisbon Revisited), se analisarmos friamente as declarações da líder Social-Democrata. Ora, Ferreira mais não fez que doutrinar-nos, referindo-se, nitidamente, à magistratura extraordinária (duração de 6 meses) de ditador, existente na Roma Antiga. Daqui resulta que, a haver dúvida, seria a concernente aos poderes deste magistrado (ditactor optmima lege creatus, ou dictactor imminuto iure?), uma vez que, a expressão “mete-se tudo na ordem” sujeita-se múltiplas interpretações.

Assim sendo, após o período legal de 6 meses a normalidade democrática seria retomada, com a restituição de poderes aos magistrados a enumerar: censores; consules; praetores; aediles curules; e quaestores. Louvemos os doutos ensinamentos romanos e apliquemo-los sem demora.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

e se o problema for o Ministério?

O que o Ministério da Educação devia fazer:
  1. Financiar as escolas e centralizar o sistema.
  2. Providenciar informação e formação aos professores.
  3. Avaliar alunos e propor-lhes exames de admissão ao ensino secundário e superior.
  4. Avaliar escolas e professores.
  5. Examinar rigorosamente e encomendar análises sobre as propostas de escolas e sindicatos sobre reformas da educação.
  6. Criar uma infraestrutura legislativa para regular o sistema educacional.

O que o Ministério da Educação faz:
  1. Inunda o sistema com uma burocracia idiota e inútil, impede que o Estado possa financiar directamente as escolas, e fá-lo através de um sistema corrupto e demorado, que não fará ninguém sentir a sua falta (àparte os burocratas), que consiste em transitar dinheiro de A para B, recorrendo a um C ineficiente.
  2. Regula a educação e as prerrogativas dos professores, sem ter em conta as necessidades e vontades de pais e comunidades, planeando, ditatorialmente, a seu bel-prazer o que a educação portuguesa deve ser nos períodos de vigência da administração do ministério.
  3. Obriga cada estudante a optar por uma carreira que não lhe interessa, atirando-os para o ensino superior ou para o emprego precário. Formação em escolas técnicas é algo ainda considerado inapropriado e sinal de fracasso pela sociedade, induzida pela acção do Ministério.
  4. Impõe aos professores modelos particularmente odiados pela classe profissional, e estabelece rankings que favorecem os que apoiam os governos em funções e os partidos do Poder, limitando a ascensão pelo mérito.
  5. Bloqueia todo o tipo de contactos das escolas com os particulares, sejam as empresas ou os pais. O nível de centralização é tal que só a ideia de uma escola possa se especializar em certas disciplinas de acordo com acordos com empresas locais ou que os pais e professores possam discordar com certas reformas do ensino público são tomadas como subversivas e prontamente apelidadas de "neo-liberais", accionando-se para isso os mecanismos de defesa do Ministério, as juventudes comunistas e os processos disciplinares.
  6. Cria uma salgalhada de artigos que os professores não compreendem, e que são usados pelos gurus dos departamentos e conselhos directivos para tutelar paternalmente a actividade dos restantes professores.
Q.E.D., talvez seja melhor abolir o Ministério da Educação, e passar a atribuir a educação aos educadores, de uma vez por todas. Ou então abalar valentemente as competências do Ministério, já que este é o país do respeitinho pelo establishment e pela Santa Burocracia.

Idiotice Infantil II

Tiago Loureiro n' O Novo Século

textos relacionados:
Idiotice Infantil

a ler também:
Lembranças dos meus tempos de jovem, Tiago Loureiro n' O Novo Século
trinta anos de corporativismo na educação, Rodrigo Moita de Deus no 31 da Armada
Pro Teste (3), Gabriel Silva no Blasfémias
A escola tem de perder a carga ideológica, André Abrantes Amaral

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Rádio Odisseia




Nova faixa na Rádio Odisseia. Desta feita, a tenebrosa Red Right Hand do Nick Cave.

o que se passa do lado de lá da cortina de ferro?!?

O mesmo de sempre! Muito amor-livre, gritos à revolução, partidos novos e Conferências Sobre Karl Marx!!!

E o que se passa neste lado da cortina de ferro?
Descobre-se que desregulação e discriminação racial não combinam tão bem como a versão "regulada", e que afinal de contas Obama é um capitalista do piorio (a tristeza, oh a tristeza)

Deste lado da cortina, só más notícias para o lado de lá...

domingo, 16 de novembro de 2008

Capitalismo Social


Muhammad Yunus, professor de economia, defensor do livre mercado, crê na redução do intervencionismo estatal, não concorda com políticas Socialistas. Salvou 150 milhões de pessoas da miséria! O criador do microcrédito, distinguido com o Prémio Nobel da Paz em 2006, é um indivíduo fascinante, um visionário em toda a justeza do termo.
No final dos anos setenta, fundou o Grameen Bank, movido pelo desejo de poder contrariar certos dogmas da economia e emprestar dinheiro a populações rurais paupérrimas, reféns de agiotas e vigários que tais. Calculou que bastariam 27 euros para alterar a vida de uma pessoa, pare lhe permitir adquirir os instrumentos necessários à prossecução de um negócio próprio. Assim, com um pequeno impulso é possível às populações empobrecidas conquistar, pelo seu próprio empreendedorismo, meios de subsistência que lhes permitirão seguir uma vida, consideravelmente, mais desafogada.
O Grameen Bank concede empréstimos sem exigir qualquer garantia, com juros baixíssimos, e regista mais de 95% de retorno. Tais são os lucros que não necessita de recorrer a donativos desde 1995, e já colabora com dez mil instituições bancárias de todo o mundo.
A tudo isto, Yunus dá o nome de Capitalismo Social. É imperioso não confundir tais ideias com o Socialismo de Miscelânea, aquele que empanturra quem não precisa com subsídios; que ignora quem, realmente, carece de apoio; que cresce em burocracia e se consome numa autofagia que nos deveria preocupar, não estivesse ela encapotada de sorrisos e estatísticas. O que este homem faz é bem distinto, e aí está o seu maior mérito. Yunus acredita nas pessoas, reconhece-lhes um potencial a explorar e, ao conceder-lhes crédito, está a incentivá-las a pôr em prática os seus projectos, os seus sonhos. Acreditar em alguém é muito mais do que o Socialismo faz, é mostrar-lhe que, através das suas capacidades, poderá pôr comida na mesa sem depender de terceiros.
E, tudo isto não é mais do que puro Liberalismo, o mercado a funcionar harmonicamente e a provar a sua capacidade. Não reconheço ao Socialismo maior eficácia na intervenção social.
Para concluir cito o notável Muhammad: “Os bancos pedem todos os dias aos seus advogados que apertem os clientes. No nosso sistema não temos juristas. Não precisamos.”

sábado, 15 de novembro de 2008

BPN: o que aconteceu, como, e o que deve vir a acontecer (supostamente)


Enquanto serviço informativo blogosférico da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, o Café Odisseia toma para si alguns deveres sobre a explicação de certos acontecimentos da actualidade. Tomados a devido tempo e após algum estudo sobre a matéria, eles são aqui expostos para usufruto de todos os interessados.
Muito pouco se tem escrito, entre a comunidade da FDUP, sobre o "escândalo" financeiro português. Houve-se algumas conversas de café, murmúrios irritados, mas pouca pesquisa e séria interrogação.
Antes de se atribuir à prática do livre-mercado (bode expiatório para todos os males do mundo, e quiçá do mau estado em que se encontram alguns planetas do nosso sistema solar) analisemos o que correu mal e o que foi feito no Banco Português de Negócios (BPN).
O BPN, sendo um banco relativamente menor no sistema financeiro português, estava, nos últimos anos, a ser gerido de forma algo suspeita. Já em 2005 o Banco fora envolvido numa investigação (ainda em decurso) que incidia sobre a prática de crimes de fraude e de branqueamento de capitais que também comprometia outras entidades.
Nessa altura estava na Presidência do BPN um antigo ministro de Cavaco Silva, José Oliveira Costa (que ocupava o cargo no BPN desde 1997). Após uns problemas em 2008 com o Banco de Portugal (envolvia informações sobre accionistas e separação de áreas financeiras que não foram prontamente cedidas) os principais stock-holders do BPN, assustados com a fama que tanto o banco como o seu Presidente estavam a ganhar, pressionaram Oliveira Costa a sair. Dito e feito, Oliveira Costa saiu. Sucede-lhe Abdool Vakil, e mais tarde Miguel Cadilhe. Ambos reportam ao Banco de Portugal as inúmeras infracções cometidas pela anterior administração, e as falhas de regulação que o sistema cometeu.
Ciente da situação cada mais "mergitur" e menos "fluctuat" do banco, e com uma recessão económica a caminho, Miguel Cadilhe optou por sanear algumas contas do BPN com venda de património, filiais e apoios de outros bancos. Insucesso atrás de insucesso, foi pedir ajuda ao Grande Pai, o Estado. Propôs um plano que envolvia, em princípio, 600 milhões de euros para tornar o Banco insolvente. O Estado nacionalizou o BPN, contra a vontade de Cadilhe, e já injectou, até agora, cerca de 800 milhões.
As razões para esta acção do Estado baseiam-se na recusa de uma colaboração com a administração actual do banco e a ideia de que o dinheiro dos investidores seria melhor investido numa nacionalização, bem como o perigo de que uma falência do BPN poderia causar na economia portuguesa.
Assim, o Estado resolve fazer o seu plano. Morrem as partes do BPN que não interessam (deixa-se o mercado funcionar com a sua acção negativa e regeneradora) e salva-se as partes que interessam, como os investimentos, negócios e a parceria com a Sociedade Lusa de Negócios, que segundo Cadilhe terá muito a perder com esta nacionalização.

Chega assim a hora de culpar e pedir contas aos verdadeiros protagonistas deste primeiro arrombo da crise de 2008 em Portugal.
Terá sido o Mercado Livre e a falta de regulação? Não. O Mercado Livre nunca poderia originar uma situação destas por razões muito simples: os problemas do BPN baseiam-se na criação do banco. Corrupção, financiamento ilegal, contas "off-shore", lavagem de dinheiro, todo o tipo de coisas que se conseguem com o número exacto de conhecimentos tidos dentro dessa enorme alcateia de opções para facilitar o negócio a que se chama "Governo". O problema no BPN não foi a sua liberdade de investir em coisas que deviam ser controladas por um qualquer poder político. O BPN violou sistematicamente a Lei, e a mais elementar supervisão, normalíssima num Estado de Direito e que neste caso devia ter sido feita pelo Banco de Portugal, falhou. E falhou "de propósito", pois está corrupta até às raízes.
A culpa é do estado de letargia em que Vitor Constâncio, Governador do Banco de Portugal, responsável pela nacionalização,se encontra mergulhado voluntariamente, dentro de uma tina de formol, e da qual acordou para importunar o pânico dos acordados, deslocando-se à meia-noie ao Parlamento da República Portuguesa para afirmar que não é ele quem deve prestar declarações sobre o que aconteceu, e sim os espíritos traquinas que atormentaram o desempenho das suas funções.
A culpa é de José Oliveira Costa, porque fez o que quis, durante o tempo que quis. Não foi o único. Nem o primeiro. Mas é a figura mais atingível pelas autoridades. A sua detenção, o seu julgamento, a prova da sua culpa e do seu legado, seriam a machadada inicial e fatal na destruição da classe política cavaquista, a classe política das obras públicas, a classe dos favores e das malfeitorias patrocinadas pelo dinheiro dos portugueses, a classe do Bloco Central.

Por fim, a culpa é dos portugueses. Por um simples facto: ainda não aprendemos a distinguir dois factores importantíssimos da vida pública: a política e a economia. Enquanto não o fizermos, vamos acusando os "ultra-liberais" e o Mercado Livre pelos milhões que desaparecem sem razão aparente do cofre de Estado, tudo em nome dos ditos "socialistas" deste país, que o consomem em estudos, relatórios e concessões.
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