quarta-feira, 11 de março de 2009
Liberdade Económica e as Verdades Universais do Café Odisseia
Portugal scores less well in government size, fiscal freedom, and labor freedom. Total government spending remains high, despite efforts at fiscal consolidation that have reduced chronic budget imbalances. Reforms in public administration that are intended to reduce the budget deficit are ongoing. The labor market is restrictive, discouraging employment growth.
só para bater na tecla mais um bocadinho, ainda há quem não tenha percebido...
Via Novo Século
PS: Já agora, portugueses e portuguesas, parabéns pelo honroso 53º lugar no indíce de liberdade económico. A ver se para o ano conseguimos ultrapassar a Jamaica, de vez.
DIE WELLE
Caros odisseus, trago-vos hoje a história do filme alemão, realizado por Dennis Gansel e que esteve nos cinemas do Arrábida em 2008 mas que, ficou um pouco na sombra dos gigantes de Hollywood. Faça-se justiça:Tudo se passa num liceu alemão, numa turma igual a tantas outras.
Identifiquei-me profundamente com aqueles jovens, com anseios e fragilidades tão próximas das minhas. Queixavam-se do facto da nossa geração, filha de uma democracia já instituída, beneficiar de tudo o que este sistema tem de bom para oferecer, mas de nunca ter tido de lutar por tais privilégios. Não damos o verdadeiro valor que a democracia merece pelo simples facto de que nunca termos tido de sofrer por ela. Ouvimos falar do salazarismo, vociferamos as nossas opiniões contra os governos e contra os partidos, assinamos petições via internet, em favor dos direitos dos povos oprimidos mas, depois destes dias ofegantes de luta, voltamos para o conforto dos nossos lares. O que os alunos daquela escola se queixam é de que falta, aos jovens de hoje, uma causa comum, algo pelo qual valha a pena lutar. Mas vamos ao que interessa: No sistema educacional anglo-saxónico uma das últimas semanas de aulas é dedicada a um projecto. Os estudantes escolhem o tema que mais lhes interessa e assistem a aulas menos convencionais. É duma destas semanas que o filme trata. O tema é as autocracias. O professor é um jovem por quem a classe estudantil nutre grande simpatia. A turma insere-se nos quadros típicos de uma sala de aulas numa secundária pública: alunos de todos os estratos sociais, com ideias e posturas diferentes. Era mais o que os separava do que o que os unia.
Como não conseguiam compreender como pode o Homem submeter-se a um regime totalitário o professor propôs um tipo de aula diferente. Ele seria o líder autocrático e eles os membros daquela comunidade. Expôs-lhes brilhantemente as faces bonitas das ideias autocráticas – sozinhos somos fracos, unidos somos mais fortes – e os meios para alcançar a sociedade perfeita: - o poder pela disciplina (os alunos teriam de pedir autorização para intervir e, ao fazê-lo, teriam que se levantar, falando alto e incisivamente); e, mais importante, - a uniformidade (todos levariam uma camisa branca e calças de ganga para as aulas).
Os estudantes foram assaltados por uma onda de entusiasmo que nunca haviam sentido. Finalmente, deixavam de parte o que os separava, criando fortes laços entre os membros do projecto – ou da ONDA – como decidiram chamar-lhe. Encontraram nela uma resposta aos problemas das suas vidas pessoais, uma causa comum, uma nova força que abraçaram com enorme excitação, típica dos seus espíritos jovens. A turma estava mais unida que nunca. Mas é aqui que a face negra das ditaduras se revela. Na busca desta sociedade perfeita o Homem tem de ser Um só, caminhando decidido e falando em Uníssono. Nestas sociedades não é admitida a diferença. O diferente, aquele que entrava este caminho, terá de ser esmagado. Os membros da Die Welle sentiram, naqueles que não partilhavam do seu entusiasmo, uma ameaça à sua causa; um obstáculo àquela felicidade louca – obstáculo esse que, persistindo, tornaria essa felicidade demasiado fugaz. Rapidamente a onda passa para lá dos portões da escola e uma nova onda, de violência e ódio, inunda as ruas da cidade.
Die Welle é um filme jovem que, ao som dum rock musculado, transporta-nos para um mundo assustadoramente próximo do nosso: um mundo de miúdos, onde a ideologia fervilha no seu sangue e que anseiam desesperadamente por algo, algo que quebre a monotonia das suas vidas e os faça sentirem-se parte de alguma coisa. Esses jovens não são mal intencionados, mas como o seu carácter ainda não está totalmente formado, dificilmente aceitam um não.
Ah! Ia-me esquecendo de dizer: A Onda é baseada numa história trágica e real que nos alerta para os perigos dos fascismos. Estes, embora enfraquecidos por meio século de liberdade, não foram ainda derrotados. Estão antes adormecidos, prontos a despertar ao mínimo sinal de fraqueza da nossa parte.
Comunicado da Administração
terça-feira, 10 de março de 2009
Chegou o Rei de Angola. Viva El-Rei de Angola!
Já se percebe melhor o que é para ele "abrir caminho para a democracia".
Viva Angola e as suas múltiplas instituições democráticas, bem como as suas cidades opulentas de cólera, raiva e SIDA!
Falta uma coluna vertebral nesta República...
Música de Revolucão II
Nous Sommes les Noveaux Partisans!
Viva o Partido Comunista Francês!
Música de Revolução
Fica a tradução possível:
Bella Ciao
"Acordei de manhã
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Acordei de manhã
E deparei-me com o invasor
Ó partigiano, leva-me embora
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Ó partigiano, leva-me embora
Porque sinto a morte a chegar.
E se eu morrer como partigiano
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E se eu morrer como partigiano
Tu deves sepultar-me
E sepultar-me na montanha
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E sepultar-me na montanha
Sob a sombra de uma linda flor
E as pessoas que passarem
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E as pessoas que passarem
Irão dizer-me: «Que flor tão linda!»
É esta a flor
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
É esta a flor do partigiano
Que morreu pela liberdade"
domingo, 8 de março de 2009
outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade
Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega
Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero
Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente
Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia
Fernando Tordo
Diz-me com quem andas...
sexta-feira, 6 de março de 2009
Logro Utilitarista

Sedutores argumentos oferece, em cabazes natalícios gratuitos, o populismo de esquerda. E de bom grado os comem os incautos votantes. Mas os leitores do Café Odisseia são de outro quilate, pensadores reflectidos e abertos ao diálogo. Como tal, hoje trago-vos morte a rodos, para vos alegrar.
O trecho supracitado que, estou em crer, muita gente conquistou; poderia até ser slogan do Bloco de Esquerda; foi proferido por Karl Brandt, a 4 de Fevereiro de 1947, no Tribunal Internacional de Nuremberga. Brandt, Comissário para Saúde do Reich, dirigiu o processo de implementação da eutanásia na Alemanha. Na letra da lei podia ler-se que a eutanásia serviria para libertar “pela morte, as pessoas que, dentro do julgamento humano e depois de aturado exame médico, sejam declaradas incuráveis”. O resultante foi repugnante: milhares de doentes mentais e velhos assassinados.
Com este exemplo pretendo demonstrar como esta questão é movediça, permitindo, sob vestes humanistas, criar os maiores atropelos à dignidade da pessoa humana.
A Ordem dos Médicos já referiu a necessidade de um debate público sobre o tema. De facto, tudo indica que na sequência dos temas fracturantes de esquerda (aborto, casamento entre homossexuais), este seguirá o cortejo. Creio que o “debate transversal à sociedade” nada terá de sério, de ponderado e diversificado – em suma, não será honesto! Adivinha-se uma imprensa parcial e inclinada, pois é tão fácil, para a “Morte com Dignidade”. Adivinha-se uma imprensa cega a valores e a opiniões contrárias.
Vou mais longe, considero um embuste a inocente questão: concorda com a eutanásia? Uma temática com tantas cambiantes e passível de originar desvios grotescos não se pode simplificar a nível atómico, não se pode empacotar e servir ao almoço na pré-escola.
Fundamentar a eutanásia na cultura ocidental é uma tarefa complexa. Poderíamos vasculhar a antiguidade clássica, poderíamos meter o nariz na Idade do Bronze, e o mais que teríamos seriam umas quantas ideias de honra homérica, uma honra dependente de humores pouco heróicos, com tendência a resvalar para o choro medricas e desertor. Não somos samurais e aqui não há harakiri! Aliás, o nosso sangue latino rapidamente criaria anticorpos para a disciplina japonesa.
Como tal, chega a ser imbecil lutar pela eutanásia e negligenciar os cuidados paliativos. Deveríamos, isso sim, defender um forte investimento na Medicina da Dor, melhorando as condições de vida daqueles que, mesmo incapacitados, desejam viver e não aceitam que a sua vida seja quantificada por critérios de proporcionalidade. Quem poderá dizer que a vida de uma pessoa acamada vale menos do que a de uma saudável? Pelos vistos a “tábua de conversão do valor da vida” circula pelas mãos de muito boa gente.
O cúmulo é achar natural que terceiros possam pôr e dispor da vida de pessoas em coma, como aconteceu com os pais da menina italiana que, fartos de carregar o empecilho, decidiram por cobro à situação. Compreendo que a minha linguagem áspera choque os leitores, peço desculpa pela dureza dos factos que não tento toldar.
Marcel Proust, no momento da sua morte, viu uma senhora gorda vestida de negro aos pés da cama, era a Morte. A “Morte com Dignidade”, a discutir brevemente, será bem mais sedutora, de belos trajos, bem maquilhada; será um gigantesco logro.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Livro de Horas

eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.
Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.
Me confesso
o dono das minhas horas
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!
quarta-feira, 4 de março de 2009
Lei de D. Afonso V
terça-feira, 3 de março de 2009
Del sentimiento trágico de la vida

Os dados são dramáticos, contudo, a animosidade popular, que tantas vezes se materializa em greves ainda não se fez sentir. Chovem acusações aos sindicatos: são ineficazes, coniventes, pouco socialistas.
Enfim, a inércia dos sindicatos nota-se quando eles são mais necessários. Em tempo de vacas gordas podemos ver os dirigentes sindicais acotovelarem-se para ver quem redige em tempo record imaginativas exigências; podemos admirar a arte com que distorcem o mercado e levam lentamente a empresas a situações insustentáveis (como agora se verifica).
No caso português, não é racionalmente possível negociar com um sindicato; é inútil tentar comunicar com quem se agacha numa trincheira comunista previamente insonorizada. No caso espanhol o diálogo também não é possível, os sindicatos decidiram ausentar-se por tempo indeterminado.
A bolha da construção civil explodiu; milhares de trabalhadores imigrantes ficaram subitamente encurralados num estado improdutivo; cresce a xenofobia; o Governo não tem meios para dar resposta à situação, ademais, atola-se em dívidas resultantes de péssimas escolhas políticas (subsidiar a saída dos trabalhadores estrangeiros, por exemplo); a esquerda nada resolve; a direita está exausta…
Perante o exposto não admirará ninguém que o descontentamento popular venha a adquirir laivos pouco amistosos e, nesse caso, uma grave crise institucional estará lançada.
domingo, 1 de março de 2009
Reflexões sobre Individualismo e Colectivismo – A armadilha do Colectivismo.
No contexto histórico, o colectivismo é recentíssimo. A tentativa de engenhar um Estado Perfeito, baseado na partilha institucionalizada e na distribuição dos rendimentos do Trabalho Colectivo pode ser baseado nos microcosmos dos antigos mosteiros cristãos ou das congregações religiosas asiáticas, na obra de Platão até, mas o ponto de vista para a Colectivização parte de um pressuposto técnico-científico inventado nos séculos XIX por intelectuais de inspiração positivista.O Comunismo e o Socialismo, enquanto recriações sociais de uma realidade específica, não são mais do que produtos de laboratório, com uma base já “a priori” afastada da realidade e das necessidades dos indivíduos. Talvez por isso, por não passarem de raciocínios imaginativos complicados, tenham tanto sucesso entre as elites intelectuais do nosso país.
O pressuposto base para estas teorias é o Colectivismo, o mesmo que inspirou Platão, Marx e Engels.
O Colectivismo é redutor em relação ao Fim da acção do Homem. Para os colectivistas, é a colectividade e o Bem Comum o Fim último da existência humana. É depreendida de início (a priori, mais uma vez, o Colectivismo é basicamente primário em todas as suas premissas) a colaboração laboral do Homem para o Estado. É próprio do raciocínio colectivista a repugna por pessoas colectivas cujo fim não seja o bem comum, e antes a prossecução de actividades ditas “egoístas”. E não lhes deve ser criticada tal assumpção. De facto, a partir do momento em que se encara a sociedade como um elemento orgânico dotado de personalidade e interesses próprios, quando se personifica o Colectivo com o objectivo de o dotar de uma vontade homogénea, é natural negar a individualidade e a iniciativa singular.
Não obstante, sintomas de Colectivismo também são palpáveis nas democracias liberais ocidentais, reflexos destas teorias totalitárias. Os métodos usados pelo colectivismo apelam aos sentidos básicos da racionalidade humana, direi até da irracionalidade humana, centrando-se nos instintos vulgares do Homem, os mais atractivos para aqueles cujo espírito é menos cultivado.
Usa o Colectivismo o apelo a instintos como o sexual ou o divinatório. Frisa-se o total apoio à destruição de normas morais da sociedade e preconiza-se a satisfação rápida dos sentidos. Estas normas, alvos tão fáceis, cedem de forma absurdamente fácil perante exigências de indivíduos que, alegando o respeito por escolhas individuais, ajudam os colectivistas da dinamitação das suas liberdades e da sua capacidade de resposta. Este apelo ao instinto sexual prende-se a um sentido freudiano, não à liberdade sexual, que é algo positivo, claro. No entanto, é parte da política hábil dos partidos de extrema-esquerda relativizar o sexo, e diminuir ao primitivismo animalesco o papel do Homem e da Mulher na relação sexual. Este mal, no entanto, é causado pelo esforço da colectividade tanto nos países individualistas como nos colectivistas, por razões diferentes.
Cria também o colectivismo forças divinas, “queridos líderes” e dota-os de centros de poder centralizados que tornam a actuação dos governantes um factor decisivo para a estabilidade dos cidadãos. O martírio de antigos revolucionários é também uma arma inteligente dos colectivistas, criando nas massas uma confusão de emoção e simpatia que contrariam as situações históricas nas quais esses líderes martirizados se encontraram nos seus tempos (caso de Símon Bolívar e Che Guevara).
A transmissão de propaganda também é comum nestes sistemas. A falsa ideia da razão da maioria, tão cara aos socialistas, não passa de uma engenhosa artimanha que deita por terra a acção dos liberais do século XVIII e XIX na criação de “um trono rodeado de instituições republicanas”. A separação de poderes, tão cara ao Estado de Direito, bem como o esforço dos antigos constitucionalistas em criar um sistema de pesos e freios eficaz, foi abandonada nas Constituições Sociais do século XX, especialmente na Constituição da IIIº República Portuguesa, de 1976. Podemos, numa generalização algo perigosa, ligar todos os males passados neste século passado à ideia transmitida pelos colectivistas de que é a vontade comum que governa.
Estabelece também o colectivismo a unidade do indivíduo como lema principal. Falham totalmente neste ponto os socialistas, comunistas, e outros que tais. A Unidade centra-se na integração na totalidade da existência, usando como ponto de partida e mantendo como característica principal a ontologia de cada Homem, a sua profunda individualidade. O que o colectivismo consegue é a Uniformidade, ou seja, centra-se na supressão das características individuais.
Os meios do colectivismo para prosseguir estes fins são a destruição do sistema, pelo menos na medida em que o pode reconstruir à sua imagem e figura. Para isso usa a inveja social, o confronto egoístico entre classes e fomenta o ódio corporativista, tornando a nação não na manta de retalhos individuais preconizada pelos liberais, mas na manta de retalhos colectivos que se guerreiam entre si e partilham sentimentos de ódio, com a particularidade de terem os meios e a força tribal capaz de provocar graves revezes na estabilidade frágil em que se encontram todas as sociedades baseadas no indivíduo, enquanto ser necessitado de liberdade para a prossecução da felicidade, e na acção desses mesmos indivíduos, enquanto manifestação consciente do comportamento do Homem.
LibreMente
sábado, 28 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
A Grande Porca
Carlos Nunes Lopes no 31 da Armada
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
O que eu não gosto de ler nos jornais

Vimos declarações e uma corrida às justificações: "Senão abrimos um precedente drástico; se os deixamos cair as pessoas vão todas tirar os seus depósitos; é o fim; a banca quebra" e para salvarmos as instituições financeiras lá foi o Estado acudir. Avaliou mal, o prejuízo é enorme, a decisão discutível, os críticos e os apoiantes dividem-se. Até agora o escrito é meramente fáctico.
Não discuto isto porque já o suficiente se falou (mal). Mas indigno-me e enervo-me quando leio que podem haver despedimentos na banca, quando leio que se salvou o Sr Fino, quando leio que o Sr Berardo negociou muito bem com as instituições, quando leio que as taxas de juro cobradas têm sido impeditivas para as empresas (muitas têm fechado portas por isso) e famílias. O meu dinheiro para estes Srs? "Enroladinho e vaselinado no sítio que eles sabem, obrigadíssimos, e tenho dito ámen".
O mínimo que exigimos de um governo dá a mão e limpa o rabo é que adopte atitudes idóneas (não inúteis e erradas) para as empresas -taxas de 10% são impossíveis!, para as famílias, para os desempregados. Não admito que um Berardo (um dos culpados disto -enriqueceu especulando, entre negócios paralelos) possa negociar a sua dívida e as empresas e famílias encontrem os golias de obstáculos.
A mais, garante-se um aval (bem sei que o Estado ganha dinheiro e nada é dado, mas garante-se!) e permite-se isto aos bancos?
Uma ultima palavra para a Caixa Geral de Depósitos, que podia e devia acudir nestas situações: praticando taxas melhores, mais baixas, salvaguardando e protegendo as famílias em melhores condições que as outras instituições bancárias, obrigando os outros bancos a fazer o mesmo. É este o momento ideal.
Que o Banco do Estado se comporte como tal, não se deixe ficar prostrado!
Abraço.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Laissez-Faire e Liberalismo

Portugal no Mundo

Do século XV ao século XX revela Portugal o mundo ao mundo, na força máxima de sua variedade, e com bastante compreensão de sua unidade humana e de sua aspiração ao mais elevado e mais íntimo.
Do século XXI por diante revelará Portugal ao mundo, sobretudo pelo ser de cada um, o que se vai atingir para além do mundo, com toda a física uma metafísica; todas as coisas várias e a mesma; todos os povos um só e diferentes; todas as características uma e diferentes; todos os ideais diferentes, e só um.”
Agostinho da Silva
o que é liberalismo?
Além disso, é importante realçar que o Estado Previdência pode estar a dar as últimas. Confesso que receio que, ao mínimo sinal de ruptura no pagamento das reformas ou dos crescentes subsídios de desemprego, a indignação suba, irreversivelmente, de tom. Dir-se-á: imprimam as notas que forem necessárias. Pois! O problema é que também esse sistema está em ruptura. A única solução é que todos possam dar mostras de parcimónia, justeza e ética - a começar no Estado. Isso significa matar este regime de democracia indirecta. Significa reduzir o Estado às áreas estritamente necessárias (Justiça, Segurança Pública, Saúde e Ensino Básico). Significa reduzir os impostos. É habitual dizer-se que em Portugal existe um complexo de esquerda. Só há complexo de esquerda porque o Estado é omnipresente, criando situações casuísticas de injustiça social. Retirem o Estado da vida das pessoas - em particular das suas carteiras -, reponham a justiça social e rapidamente mudaremos. Para melhor!"
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Realismo Socialista ou Ladainha Beata

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
O Centenário Comemorativo do aparecimento de uma nova forma de Portugal: a Actual

Visa a comissão que prepara esta comemoração mostrar aos portugueses as conquistas sociais conseguidas nesses conturbados tempos.
Apesar de inglório, é de facto um esforço nobre, e do maior interesse histórico. O problema, a meu ver, centra-se na continuidade da propaganda enganosa que se mantém na abordagem deste assunto.
Havia membros dos vários partidos republicanos que eram, de facto, pessoas de enorme valor e iniciativa. A decadência do regime anterior e o caciquismo, bem como a crescente imobilidade social, proibiram essas pessoas de se inserirem no sistema e provarem o seu valor com os devidos méritos. No entanto, durante a república, o favoritismo, o caciquismo, a corrupção e sectarismo só aumentaram, tendo atingido um patamar de violência inédito na nossa história entre diferentes organizações rivais.
Todas as grandes medidas tomadas pela Primeira República deram-se no ano de 1911, e mesmo essas tiveram efeitos de curtíssima duração. A separação entre Estado e Igreja deu-se em situações de absoluto desprezo e autoritarismo do Estado sobre a Igreja. É até erróneo falar na Lei da Separação, como foi chamada na altura. A denominação mais correcta seria Lei da Submissão da Igreja ao Estado, que passou a controlar todos os edifícios de culto, bem como a leitura das pastorais nas missas. O “direito à greve”, como se costuma ler nos manuais de história da escola, não foi instituído ou criado nessa altura. Já existiam greves durante a Monarquia Constitucional, e não eram reprimidas brutalmente (pelo menos as pacíficas). O que se deu em 1911 foi a regulação da greve pela classe política, que o fez à revelia das associações sindicais, que não tiveram qualquer voto ou opinião na matéria.
Já no ano seguinte à promulgação do Decreto-Lei que regulava o direito à greve se deu a prisão, em Lisboa, de 800 grevistas. Durante essa greve geral, órgãos republicanos revolucionários, aqueles mesmos que hoje em dia o canal público de televisão retrata com pinta de heróis progressistas, arrebentaram carros eléctricos “à bomba”. Muitos desses membros da Formiga Branca e da Carbonária usaram os trabalhadores como instrumentos de protesto e instabilidade, e depois usavam da sua imunidade para com as tropas republicanas que vinham impor a ordem, visto que os carbonários sempre gozaram de particular temor e respeito por parte dos partidos republicanos.
O Partido Socialista, criado ainda antes do Partido Republicano, foi arbitrariamente condenado e fechado, devido às suspeitas de ter contactos com os activistas da Monarquia.
Na educação, os republicanos somaram falhanços atrás de falhanços. As faculdades criadas na altura funcionavam em condições impróprias, devido ao facto de terem sido criadas em pacotes. Só na IIº República, ou Estado Novo, se criaram infra-estruturas capazes do ensino desses cursos.
Em 1914 havia já mais de 2000 pessoas acusadas de crimes políticos.
A liberdade política em nada progrediu, regrediu. A censura à revista Orpheu, a diminuição do número de eleitores de 900 mil durante a Monarquia para 300 mil durante a república, bem como as persistentes ditaduras de executivo apoiadas pelos presidentes da república, tornaram a situação portuguesa tão melindrosa como ridícula. Em 26 anos de primeira república, o País consumiu-se.
Renasce o messianismo e o sebastianismo, mas numa vertente diferente da antiga. Dantes, os sebastianistas choravam a grandeza perdida. Agora, choram a decadência perpétua.
Como súmula ou epíteto da campanha desastrosa que foi para o País toda esta farsa da república de Outubro, restam dois fenómenos ocorridos em 1914 e 1921.
A entrada irresponsável na guerra tornou Portugal na nação mais miserável da Europa. A fome foi tanta em Lisboa que se deram motins. As tropas estavam tão mal armadas que perderam em todas as frentes, nas colónias africanas e na Europa. Não houve valentia lusa para a Iº República. Não numa guerra que não nos pertencia, e na qual não estávamos no lado único da justiça. O custo de vida atingiu os 200% e entre 1917-25 houve 200 greves.
Em 1921 o sintoma último da queda da República tem lugar no massacre cruel da “Noite Sangrenta”, a rusga mais cruel da nossa história e também a mais esquecida ou escondida dos portugueses. Foram fuzilados sumariamente todos os heróis do 5 de Outubro.
Uma revolução assim não merece uma comemoração. Merece uma séria meditação por parte deste país e dos seus cidadãos.
Durante a vigência do primeiro regime republicano os portugueses tiveram, pela primeira vez, consciência dos males que podem assolar a sua terra e da instabilidade que também por cá é possível.
Em vez de escondermos toda a porcaria debaixo de um belo tapete, a comissão comemorativa do centenário devia estudar o fenómeno e procurar expô-lo ao homem médio, para que se deixassem para trás todos os mitos que envergonham a nossa história. Ou será que o compadrio político permaneceu tão forte desde esses dias, que a Verdade não poderá nunca ver a derradeira luz?
Uma Europa Livre?
Anna Politovskaya foi assassinada, suspeita-se que a soldo do Governo Russo, tal como a jornalista que continuou o seu trabalho.
Roberto Saviano, autor do êxito “Gomorra” vive com uma escolta de cinco guarda-costas, e viaja num carro blindado. Não mantém a mesma residência muito tempo, e vive sob constante ameaça de morte da Máfia.
Em Portugal, suspeita-se que membros do SIS tenham pressionado magistrados e jornalistas para não divulgarem certas informações sobre os escândalos que recentemente têm vindo a afectar o governo.
Na Europa, na nossa livre e comunitária Europa, a qualidade dos governantes só rivaliza com uma coisa: a liberdade de escrever.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Glória ao Bravo Povo (III)

Principalmente certos sectores diametralmente opostos ao Café Odisseia (e Graças a Deus!) têm-se pronunciado pela indubitável legitimidade de exercício que ocorre do suposto resultado do referendo.
Apraz-nos aditar umas quantas elucubrações. Começamos por referir todos os aspectos que violam, no nosso sentido pouco estudado das legitimidades, o Estado de Direito e a recorrente legitimidade de um governante. Perdoem-nos as alminhas sensíveis, nós não temos salvação.
De facto, os milhares de DESAPARECIMENTOS; os ASSASSINATOS (a soldo) de jornalistas e estudantes; a propaganda intensiva (MESMO NO DIA DO REFERENDO E À BOCA DAS URNAS); as nacionalizações unilateralmente impostas; o encerramento compulsivo de uma estação televisiva oposicionista; o terrorismo económico internacional; os programas semanais de três horas do Líder Socialista; o aproveitamento da miséria através de subsídios; o desrespeito pelos princípios da separação de poderes e da integridade republicana da Constituição; a própria INCONSTITUCIONALIDADE da proposta de referendo, que pela constituição venezuelana só poderia ser feita em Dezembro de 2009; o total desrespeito pela imunidade diplomática (CORTESIA INTERNACIONAL); a inflação galopante causada pela condução da economia por um grupo centralizador de amadores irresponsáveis, caiem perante os ilustres argumentos borra-botas, que os afastam com hercúleo à-vontade.
Impulsionados por um certo nojo com todo este conformismo cinzentão e sensaborão que invade tão esclarecidas mentes do activismo político, e vendo todo este impulso ideológico cego a valores e a sentido tão desaproveitado, os presentes autores têm de, mais uma vez, divorciar-se (de acordo ainda com o casamento heterossexual) da opinião corrente leviana.
Reiteramos, portanto, a ideia de que Hugo Chávez tem tanta legitimidade no exercício das suas funções como Robert Mugabe, José Eduardo dos Santos, Mussulini, Adolf Hitler, Atila, Júlio César ou Fátima Felgueiras. E até nos permitimos a dizer mais, o sentido democrático de Hugo Chávez é tão enriquecedor como a inteligência de Duarte Cordeiro.
Até porque o apoio de um povo acicatado pelo chicote da miséria não é, E NUNCA FOI, sinónimo de legitimidade de exercício.
A legitimidade de exercício prende-se, sobretudo, no respeito dos princípios do Estado de Direito e não do conforto idiossincrático das maiorias opressivas, proletárias, camponesas e académicas. A legitimidade de exercício de Hugo Chávez estava perdida bem antes deste referendo, e é isso que devemos frisar.
Glória ao Bravo Povo (II)
Glória ao Bravo Povo (I)
os bons partidários de Chávez explicam docemente aos estudantes Venezuelanos o valor da revolução socialistaquinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Só vejo o mar: É vermelho marxista
Do referendo ao plebiscito vai a distância que aqui, estudantes de direito, me recuso a falar. A primeira ideia que me perturba o sono é esta.
A segunda é o filho da puta ditador que caralho, até é eleito democraticamente, mas como ganhou o referendo vamos lá pedir à sininho argumentos verdes cor de nota.
Tão belo falar do Obama e do prodigioso e fecundo fenómeno da melhor democracia do mundo. É só a mesma que permitiu ao melhor presidente da sua história governar mais tempo do que o idóneo aconselha. Mas então o chavez já não é ditador. Momon não te rias que já te apanho. Já por isso os americanos espertos impuseram limites. Tumba, safa te agora. O problema é que tens razão, mas do que pode ser não se retira o é ou o será. Vejam bem, num exercício meramente abstracto poder ser eleito irrestritivamente não implica a viciação do sistema político ou eleitoral. Nós podemos presumi-lo? Podemos supo-lo, mesmo teme-lo? Pois é claro que sim. Mas dele não retiramos a certeza.
Aliás, por alguma razão eu gramo o mesmo tipo na minha terra há-de fazer 16 anos, o mesmo jardim tem não sei quanto tempo e tantas mais casos. É óbvio que nao se compara a influência do autarca ao do chefe de estado, mas se de democracia perfeita falamos e queremos então suportemos o argumento.
Se foi o chavez eleito democraticamente nem há discussão que se faça, se tem (fale-se que o homem nem nas aulas se calava) legitimidade nem se discuta, se tem ambos sem suspeição o mesmo se aplica. Não discuto a legitimidade de exercício neste caso, como já o justifiquei há longos meses, porque a democracia funciona e é pelo sufrágio que é apurada. É óbvio que podemos contrapor as duas legitimidades, a de exercício e a de título, mas quando os mecanismos permitem a fiscalização, avaliação e a posterior decisão da primeira é infértil abordá-la, para além de obsoleta. Noutro domínio podemos fazê-lo; com Hitler, por exemplo. Mas o desgraçado impôs um clima de terror e medo, morte e genocídio com perpetuação fascista, totalitária, autoritária e ditatorial no poder, que nem a análise pode ser feita. Já com os outros dois, o caso é diferente: o início, o meio e o fim são diferentes. Basta que se saiba como chegaram ao poder, como o mantêm e o dominam para se entender que o caso muda de figura e, por conseguinte, de análise.
A verdade é esta, que o chavez faz merda faz, que não fazem sentido as profecias e ideias que tem não fazem, que é arrogante é; mas não é ditador ou algo que se pareça enquanto o sufrágio, insuspeito e isento, andar com ele. Caramba, digam-me onde leram sobre suspeitas de fraudes com a acuidade e clarividência necessárias que possamos falar disso? Uma diferença para o Eduardo dos santos, por acaso. Nem o eurodeputado, no justificado rol de críticas auspiciosas inclui esta ideia (Lembrei-me que um jornalista foi também expulso do Brasil por dizer que o Lula era um bebum). De nada serve apelar e justificar quando nos convém e profetizar os males quando discordamos se do mesmo vem a base.
Em três notas concluo a minha opinião:
- não é o chavez nenhum presidente dos pobres ou do povo. No mesmo momento em que ia escrevendo ocorreram-me umas palavras de Nietzsche: "O Estado é o nome do mais frio de todos os monstros gelados. Aliás, ele mente duma maneira fria e a mentira que sai da sua boca é esta: Eu, o Estado, sou o Povo."
-é eleito de forma democrática, pelo que nem se questione a sua legitimidade, nem se o compare a outros homens, nem se fale num ditador.
-a questão das divisas, dos jornais, da tv, rádio nao permitem falar num ditador. Num projecto muito auspicioso disso, pois claro, mas não em ditador.
Não restem, portanto, dúvidas quanto à legalidade e legitimidade do homem e do processo referendário, sem deixar de se ter a mesma garantia de que a decisão é errada e não se identifica com a ideia de democracia que pretendemos e se pretende.
Concentrem-se agora esforços no controlo da sua política, impedindo o caminho para a tirania, empenhando-nos num exemplar controlo internacional nas eleições próximas.
Abraço.
Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Lobo Antunes é, neste momento, o autor que mais merece o Nobel da Literatura; é, se ainda existe justiça na atribuição de tal prémio, quem para tal mais escreve. Não questiono o mérito de Saramago, de facto, o prémio foi-lhe correctamente atribuído, nem tentarei justificar a superioridade literária de Lobo Antunes – deixo isso para quem gosta de se aborrecer.
As suas obras olham o quotidiano, temas banais que mais não desejam ser, versam vivências do autor (principalmente a guerra colonial e as memórias da sua profissão)ect. Não é isto que o destaca mas sim o seu entendimento perfeito dos sentimentos com que pontua as personagens, entidades quase corpóreas, é a crueza do discurso em passagens que se desejavam suavizadas. Mas Lobo Antunes não quer ser suave, diz o que deseja da forma como habitualmente é sentido, homem de aguçado entendimento e engenho. Nas suas palavras: “porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro”.
Deixo um excerto da sua obra Cus de Judas:
“Escute. Olhe para mim e escute, preciso tanto que me escute, me escute com a mesma atenção ansiosa com que nós ouvíamos os apelos do rádio da coluna debaixo de fogo, a voz do cabo de transmissões que chamava, que pedia, voz perdida de náufrago esquecendo-se da segurança do código, o capitão a subir à pressa para a Mercedes com meia dúzia de voluntários e a sair o arame a derrapar na areia ao encontro da emboscada, escute-me tal como eu me debrucei para o hálito do nosso primeiro morto na desesperada esperança de que respirasse ainda, o morto que embrulhei num cobertor e coloquei no meu quarto, era a seguir ao almoço e um torpor esquisito bambeava-me as pernas, fechei a porta e declarei Dorme bem a sesta, cá fora os soldados olhavam para mim sem dizer nada, Desta vez não há milagre meus chuchus, pensei eu, fitando-os, Está a dormir a sesta, expliquei-lhes, está a dormir a sesta e não quero que o acordem porque ele não quer acordar, e depois fui tratar dos feridos que se torciam nos panos de tenda, nunca os eucaliptos de Ninda se me afiguraram tão grandes como nessa tarde, grandes, negros, altos, verticais, assustadores, o enfermeiro que me ajudava repetia Caralho caralho caralho com pronúncia do Norte, viemos de todos os pontos do nosso país amordaçado para morrer em Ninda, do nosso triste país de terra e mar para morrer em Ninda, Caralho caralho caralho repetia eu com o enfermeiro com o meu sotaque educado de Lisboa, o capitão apeou-se na Mercedes num cansaço infinito, segurava a arma à laia de uma cana de pesca inútil, o povo da sanzala espreitava receoso lá de baixo, escute-me como eu escutava o rápido latir aflito do meu sangue nas têmporas, o meu sangue intacto nas têmporas, pelos buracos da varanda via o capitão a passear de um lado para o outro apertando o viático de um copo de uísque contra o peito, falando sozinho, cada um conversava sozinho porque ninguém conseguia conversar com ninguém, o meu sangue no copo do capitão, tomai e bebei ó União Nacional, o corpo do morto crescia no quarto até rebentar as paredes, alastrar pela areia, alcançar a mata em busca do eco do tiro que o tocou, o helicóptero transportou-o para Gago Coutinho como quem varre lixo vergonhoso para debaixo de um tapete, morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África, baixas insignificantes e adeus até ao meu regresso, o furriel arrumou os instrumentos cirúrgicos na caixa cromada, os canivetes, as pinças, os porta-agulhas, as sondas, sentou-se ao meu lado nos degraus do posto de socorro, espécie de vivenda pequenina para férias dos reformados melancólicos mordomos idosos, governantas virgens, os eucaliptos de Ninda não cessavam de aumentar, estamos os dois aqui sentados como eu e ele nesses tempo, Abril de 71, a dez mil quilómetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até agora nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.”
da chegada ao Paraíso

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos.
Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens.
Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.
as anedotas de um aluno de Direito
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Pelo Menos Foi Eleito Democraticamente... (IV)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Surto Viral
Refira-se que os sessenta e nove casos detectados são uma aproximação grosseira do real problema. Aliás, para além da questionável transparência dos dados fornecidos, Luanda tenta desconsiderar a situação, como refere Fátima Valente (membro da comissão de combate à raiva): “Anualmente, desde 2001, vinham ocorrendo entre vinte e trinta casos. Em 2006 tivemos oitenta e um casos.”
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
They Like It Big

A escola de Keynes é a escola intervencionista por excelência no mundo das economias de mercado e das democracias liberais, e os seus ensinamentos têm-se espalhado um pouco por todo o globo, agora com redobrada intensidade.
Os keynesianistas (Br.), ou keynesianos (Pt.), advogam a inflexibilidade de preços e salários como única forma de atingir o pleno emprego, e defendem a intervenção do Estado na criação de subsídios e apoios a empresas e consumidores, e estímulos do mercado como obras públicas. A grande bandeira da política de Keynes no que toca às despesas públicas é o efeito multiplicador. Resumidamente, o efeito multiplicador consiste no aumento do múltiplo do rendimento através do aumento do investimento. Isto acontece porque o aumento do investimento aumenta a procura de bens de consumo.
Estas teorias reaparecem na esquerda democrática como factores de cura da actual crise económica, mas surgem demasiado desligadas da lógica de Keynes e da sua ideia de política económica. Ao mesmo tempo que o efeito multiplicador tem efeitos positivos, pode também vir a ter efeitos negativos. De facto, a teoria até funcionava se as economias nacionais não estivessem implicadas num contexto internacional. Isso quer dizer que os rendimentos provindos do acréscimo de consumo podem ser usados na compra de bens ao estrangeiro, anulando os efeitos do “efeito multiplicador”.
Keynes, no entanto, estava muito ciente das falhas na sua teoria, e procurou colmatar essas falhas usando os regimes políticos da sua época.
Exigia e exige o keynesianismo uma dose larga de proteccionismo económico e medidas de pleno emprego, como nacionalizações e criação de indústrias nacionais. O keynesianismo, em meados dos anos 30, parecia adaptar-se perfeitamente aos regimes nacional-socialistas e fascistas. Estas economias emergentes da Grande Depressão ultrapassavam em resultados as economias dos países democráticos cultores da iniciativa privada. Tanto foi assim que Keynes fez questão de que os seus trabalhos fossem primeiro publicados em alemão, na Alemanha nazi, considerada por ele o palco onde as suas teorias teriam melhor resultado.
Muitos outros países adoptaram medidas estatais, aumentando o comércio interno através de medidas coloniais e impondo restrições aos bens importados, fossem das colónias ou de outras metrópoles. É o caso de Portugal e Reino Unido.
É possível que o keynesianismo das décadas de 30, 40, 50, 60 e 70 tenha recuado a autonomia das antigas colónias das potências europeias em várias décadas, e que posteriormente ainda tenha causado a dependência destas em relação ao estrangeiro.
As medidas de protecção à agricultura preconizadas pela UE foram talvez as maiores culpadas pelas graves crises económicas dos países africanos. Produtores de matérias-primas, estes estados viram os mercados “inchar” com produtos europeus produzidos a uma escala imbatível. A concorrência, protegida e subsidiada por um sistema de quotas e investimentos, aumentou os bolsos dos agricultores da União, mas com terríveis custos.
Os cânticos laudatórios dos Partidos Socialistas e Social-Democratas aos 30 Anos Gloriosos são a prova de como este egoísmo europeu se mantém, e se quer repetir. Durante as décadas em que a Europa se fechou em si, anafada pelo Plano Marshall e pelo consumismo incentivado, o resto do mundo morria à fome, procurando incansavelmente um lugar nos mercados ocidentais ou caindo em políticas socialistas.
A oposição liberal, se a há, só pode argumentar com os 15 Anos Livres, os anos iniciados por políticos como Reagan ou Thatcher, que por muito que se discorde das suas políticas conservadoras, criaram a abertura económica que permitiu às praças asiáticas progredir e alcançar um nível social e económico capaz de competir com os europeus e americanos. Esses 15 anos livres, cujo auge foram os anos 80, que viram uma América Latina a levantar-se do chão e a largar a caridade ocidental. Só na época do “neo-liberalismo” as economias africanas puderam compensar a desfeita dos europeus e dos americanos.
A volta ao Big Government era de esperar. Há vários anos que os europeus se queixam da competitividade da Ásia, da África, numa espécie de bairrismo continental. Agora, mais uma vez, a culturalmente superior Europa tem a hipótese e a desculpa para se fechar, e ganhar o suficiente para atirar alguns ossos ao “Terceiro Mundo”, como tão carinhosamente gosta de fazer. A miséria de uns, de facto, alimenta os outros.
Prémios Odisseia - Categoria Blogos
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Estudante de Direito
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Em Todo o Caso...

- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões –
Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Mário de Sá-carneiro
sábado, 14 de fevereiro de 2009
A Tolerância que Nos Tolhe

O mais interessante é que, para o Vaticano não ser alvo da crítica destes seres etéreos, teria de mergulhar em azoto líquido. Senão vejamos: se durante muito tempo acusavam a Igreja de não acompanhar a evolução dos padrões culturais, agora, que finalmente se voltou para as novas tecnologias (Internet, televisão, etc), agora que participa activamente em debates transversais a toda a sociedade, que reflecte sobre os últimos avanços da ciência; agora que faz tudo isto, os nobres moralistas apontam-lhe o dedo e apelidam-na de leviana.
Mais grave ainda é a deturpação que as declarações dos representantes clericais sofrem: exemplos históricos são interpretados como manifestos anti-islâmicos; metáforas são levadas a peito pela imprensa, que sente a sua dignidade decepada por entre muita birra e choro, como crimes de lesa pátria.
O nosso mundinho é tão airoso na sua perfeição formal que silenciar a Igreja se tornou estandarte de algumas esquerdas mais inconsequentes. A Santa Sé não tem só o direito de questionar e discutir assuntos políticos, tem também esse dever. Então, uma instituição com tanto poder educacional e formativo, deveria permanecer calada? Para muito boa gente sim, deveria voltar-se para o terço e ministrar uns quantos pais-nossos em jeito de expiação dos pecados e deixar a política para os indivíduos capacitados. Não interessa que os senhores bispos que vemos palestrar tenham dedicado toda a vida ao estudo minucioso não só da teologia, mas também da filosofia, sociologia, POLÍTICA, diplomacia, direito etc. Não, nada disto interessa, eles são incapazes e ponto final!
Outra questão, tantas vezes invocada, é a mancha escarlate do sangue de milhões de inocentes ceifados pela Igreja. Sem dúvida que houve derrame de sangue, sem dúvida que morreram inocentes. Todavia, da mesma maleita se encontra ferido o socialismo, o liberalismo, o nosso país, qualquer país. Os alicerces da humanidade são incrivelmente sangrentos. Contudo, pouca gente refere, por exemplo, a sua luta pelo fim da escravatura e o contributo inestimável na defesa da dignidade humana.
Assim sendo, após o que escrevi, não me abstenho de tecer duras críticas. Considero grotesco o perdão do Vaticano ao bispo norte-americano (Richard Williamson) que nega incessantemente o holocausto nazi. Não se pode passar uma borracha por cima de discursos anti-semitas (vocábulo no sentido estrito, uma vez que são vários os povos semitas), discursos que só encorajam o ódio perante os judeus, novamente em franca expansão. Assim como me parece incomportável a sua posição no combate ao vírus da SIDA (a infeliz e insustentável oposição ao uso do preservativo).
Perante o exposto, fica o desejo de uma convivência saudável entre as várias forças sociais, que deveriam colaborar entre si, não entrando em desatinos despóticos e não açambarcando a verdade.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Darwin e a Madeira
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
A Origem das Espécies
Como postula o Darwinismo, os indivíduos mais aptos singram na comunidade. Facilmente reconhecemos a Darwin o mérito de ter afastado o paradigma científico do criacionismo; paradigma este que conheceu várias roupagens, entre elas a "lei do uso/desuso" de Lamarck (o uso um órgão desenvolve-o, o desuso atrofia-o). Darwin introduz o conceito da "selecção natural" e do "antepassado comum a cada espécie"; choca a comunidade científica e religiosa – a geração espontânea é posta em causa.Contudo, a história poder-lhe-ia ter sido bem mais ingrata, como o foi para Alfred Russel Wallace. Este autor, naturalista britânico, desenvolveu, paralelamente a Darwin, uma teoria tão similar que se diria plagiada. Contudo, de embuste nada tinha e, quando Darwin se apercebeu da sua existência, apressou-se a publicar a Origem das Espécies, antecipando-se a Wallace, mais vagaroso.
Tivesse o fado sido outro e falaríamos hoje em “Wallacismo” e não em Darwinismo.





