segunda-feira, 19 de outubro de 2009

saramago em claro

Saramago junta-se ao clube de escritores que, recebendo um Nobel pelo simples facto de se escrever com razoável imaginação, dentro dos padrões de uma moda literária dita "moderna" e doutrinar um esquerdismo digno do Cretáceo, criticam de forma cretina um livro que não compreendem.

O anti-clericalismo de Saramago, o seu trés pop Evangelho, e até o recente Caim, não são o melhor da literatura de língua portuguesa. Quem o diz, não a conhece. Nenhum dos seus livros diz tanto sobre a literatura e a cultura lusa como um dos livros de Ramalho, de Eça, de Camilo, de Vergílio, de Torga, de Herculano, de Júlio Dinis, de Drumond, de Buarque, de Machado de Assis , de Vieira...

É uma moda de escrita, uma coisa desconexa com alguma piada, à la Sudamericana, mas não é literatura portuguesa. Alguns dos seus professos defensores e fãs protestarão, com toda a justiça, destas palavras. Mas um escritor não se mede apenas pelos livros que escreveu. Um escritor é o seu estilo, as suas crónicas nos jornais, as suas reportagens, os seus depoimentos, a sua postura e filosofia de vida.
Por isso é muito fácil escrever livros, mas é difícil ser escritor. E por isso, Saramago é um escritor, cedo-lhe isso, mas português não é. Também não é Universal. É uma moda.

E como todas as modas, Saramago tem de chocar, tem de atrair atenção.
Assim Saramago sabe o que dizer da Igreja, da Bíblia, dos Católicos, sabe divulgar o seu ódiozinho, o seu desejo de esconder das criancinhas um livro tão terrível, o seu ateísmo tão superior à quadrilha que molha a testa dos filhos como sinal de entronização na sua organização "criminosa".

Saramago é a aristocracia da esquerda. Que, por sinal, é a pior. Toda uma multidão de juventude cretinizada pela "irreverência" de um velho decrépito - símbolo de ideias nado-decrépitas - deseja ser Saramago, deseja ouvir Saramago, consumir Saramago, vesti-lo nas camisolas como se de um Che se tratasse.

O problema é que Saramago é um flop. Não é português, mas não é do Mundo. É um nada, mas um nada na moda.

6 comentários:

Daniela Ramalho disse...

não sei se alguma vez leste o evangelho, mas esse livro sofre do mal de muitos nunca o terem lido e dizerem só "ui, é muito mau porque só fala dos católicos, e ainda por cima escrito por um homem que não percebe a bíblia". Dizer que saramago não entende a bíblia parece-me deveras caricato, porque não me parece que muita gente que se diz católica perceba também a bíblia. aliás, nem sei quantos deles se deram ao trabalho de ler a bíblia.
o saramago sofre de um problema que é dizer aquilo que pensa num país de beatos e beatas que acham que não é um ateu que tem direito a criticar aspectos do seu livro. além disso limitam-se muitas das vezes a fazer copy paste de frases já escritas noutros lugares e ditas por outros (onde é que eu já vi noutro lugar essa alusão de que saramago escreve como um escritor sul americano? parece-me de qualquer maneira que é impossível traçar paralelo entre ambos os estilos literários e basta ler escritores sul americanos para perceber o vazio de afirmar tal). saramago sofre ainda do mal de ter ganho o nobel quando devia ter sido alguém mais pomposo a fazê-lo: portugal sempre mostrou que tem um problema com saramago, com atitudes verdadeiramente vergonhosas de censura a livros e tentativas de os retirarem de modo a não poderem vencer prémios. talvez o problema esteja na sua cor partidária, ou talvez estejam muitos ofuscados a comprar o que lhes dizem para apreciarem verdadeiras obras-primas como as intermitências da morte, o ensaio sobre a cegueira, a jangada de pedra, e poderia continuar a dizer várias obras que vão para sempre marcar um modo de fazer escrita em portugal. quer queiram quer não!
Além disso parece-me engraçado tentar destruir um escritor porque não escreve ele afinal como é suposto um escritor português escrever. ui, porque isto das escritas é como as músicas tradicionais: cada país tem a sua e temos de excomungar os que ousam escrever de modo diferente. aliás, a lista datada de escritores que ofereces demonstra que deixas de fora todo e qualquer escritor português que ousou sair fora da crítica costumeira portuguesa, o que acaba por ser paradoxal pois saramago em muitos dos seus livros apanha muito bem o que são afinal os portugueses. provavelmente não está é tão claro, ou então não leste mais do que o memorial do convento.
quanto a dizer que o senhor é uma moda não poderia deixar de soltar gargalhada mais violenta. aliás, parece-me antes que existe uma moda que acha "fixe" dizer mal do nosso único nobel, porque ele do alto da sua idade limita-se a mandar umas bocas foleiras sobre tudo sem ter conhecimento de causa. além disso o tipo até fugiu para uma ilha só porque percebeu que portugal lhe tinha as costas voltadas. pior do que tudo é que ele escreve sem qualquer tipo de pontuação, o que torna a leitura dos seus livros intragável.(e são estas frases tão comuns)
eu nunca li a bíblia e provavelmente nunca o irei fazer porque considero existirem leituras bem mais interessantes, além de não ter o livro em casa. mas a verdade é que das passagens às quais dediquei a minha leitura, encontrei um livro que perde as suas linhas a falar de tristeza, de morte, de castigo e punição, de um deus que tenta sempre deitar abaixo as suas pequenas obras para que elas vivam infelizes ou serão castigadas por qualquer coisa de interessante que tentem fazer. as religiões trouxeram mais sangue ao mundo do que propriamente felicidade, e não entendo como mesmo assim se continua a tentar sacrificar um homem por dizer aquilo que pensa.
e não me parece que seja um livro de esconder. aliás, quer-me parecer que a sua leitura com um pouco de juízo até poderá esclarecer algumas mentes e evitar alguns mal entendidos ou espécies de fanatismo.

Daniela Ramalho disse...

p.s - quando leres o evangelho segundo jesus cristo, caso ainda não o tenhas lido, vais entender que o livro nada de mal diz sobre a religião ou sobre a bíblia. entendo que trazer para um livro as mortes da inquisição e outros factos que tais, seja motivo para certos religiosos ficarem irritados, porque todos gostámos de guardar os nossos podres num armário, mas fora isso, não vejo que mal tenha criar um cristo real, um deus que age como um humano(afinal não fomos nós criados à sua imagem?) e um diabo que até tem queda para a política, ainda que num plano divino.

Manuel Pinto de Rezende disse...

Daniela, tal como aconteceu com o Ensaio sobre a Cegueira, não li o Evangelho até ao fim. não gostei, pronto.
mas não é a minha opinião pessoal que diz que estilo de escrita é o de Saramago. de facto, também tenho algumas reservas em relação a relacionar Saramago ao Realismo Mágico, ou Místico, das novas (agora já não tão novas) escolas do sul da américa, mais propriamente a literatura argentina, colombiana, enfim, de lingua castelhana ( só posteriormente a literatura brasileira viu exemplos nacionais disto, será um fenómeno pouco natural entre eles(?!?).
mas a obra de Saramago não é única. assemelha-se muito, por exemplo, a John dos Passos e aos romancistas americanos de início de século XX (que influenciaram grandemente a escola sudamericana).
~
podes não ver uma relação directa entre Saramago e GG Marquez, mas porque são vertentes distintas de uma mesma escola. e há teses de literatura que tentam provar este ponto.

mas adiante, que isto já são terrenos em que eu me sinto pouco à vontade.

sobre os comentários à Bíblia,
muito pouca gente conhece a bíblia. poucos católicos e, a meu ver, ainda menos ateus, se dedicam ao seu estudo.
no entanto, a bíblia não é um objecto de pesquisa e doutrinamento qualquer. é um livro religioso, muito denso, muito complexo, que impõe uma interpretação baseada nos Mistérios, na teologia, nos Doutores da Igreja.

poucos judeus conhecem a Tora de resvés. também poucos muçulmanos sabem de cor o Corão. os católicos têm direito a uma vida produtiva sem terem de se cansar a aprender a interpretar um livro sagrado que já é alvo de complicadissimas análises filosóficas há mais de 1000 anos.

Saramago diz umas curiosidades sobre a Bíblia, leu quem já escrevesse sobre ela, mas isso não faz dele um perito na matéria. Nisso, ele sabe tanto sobre o Livro Sagrado como um taberneiro, consegue é intelectualizar a sua opinião.

isso já eu vi mil vezes feita, bem é que poucas.

quanto à literatura portuguesa,

acho que não é preciso ser nacionalista para se ser escritar português. vergílio e torga são autores de génio reconhecido em todo o mundo, e vergílio é traduzido, penso que ainda, em mais línguas que Saramago. Será, porventura, o autor mais traduzido em todo o mundo.

não digo isto por obrigação, mas a verdade é que a psique russa está presente em Tolstoi, em Dostoievsky, em Herzen, Berensky, etc.

Marguerite Yourcenar, Tolkien, Ayn Rand criam estilos tão únicos que se podem considerar do mundo, mas isso não os torna nem superiores nem iferiores. a sua escrita reflecte-se num objecto de estudo desviada da realidade regional, do ponto de vista do nativo de uma terra.

eu penso que Saramago vê o mundo de fora, mas não de forma única.
é um homem que ganhou, infelizmente, o gosto à blasfémia. foi injustiçado, de facto, por um ministro que recusou a inclusão das suas obras na lista das melhores obras contemporâneas portuguesas. mas isso funcionou mais em favor de Saramago que em favor do esquecido ministro.
Saramago pôde criar a imagem do escritor censurado, exilado no país vizinho (onde haverá liberdade, um país cujo regime Saramago parece odiar, pelo menos odiava antes de aceitar o prémio "Princípe das Astúrias").

Saramago ganhou, no momento em que foi "censurado", o seu Nobel.

podes discrodar disto, mas de facto não maior génio em saramago que nos restantes nomeados ao prémio Nobel no seu ano. Havia, contudo, uma conotação política, de facto. mas isso, a meu ver, também sempre funcionou a seu favor.
Não é Siza Vieira um comunista? não são grandes nomes da arte nacional antigos membros do PCP? ser comunista não é um entrave ao sucesso em Portugal.

para finalizar:
Saramago não é boa rês. basta pesquisar um pouco na internet para saber a rusga que ele fez no DN, quase destruindo esse antigo jornal, de tal depuraçao que ele fez aos bons jornalistas daquela casa. é um dos representantes do "terror intelectual" que se seguiu à revolução de Abril.

e pessoas assim, a meu ver, não merecem consideração por parte de gente decente.

Manuel Pinto de Rezende disse...

errata: Vergílio será, porventura, o escritor portuguÊs mais traduzido no mundo.

mas penso que já não é bem assim.

Duarte Canotilho disse...

Apoio totalmente a daniela! acho que realmente não há mais nada a acrescentar...

(quando a igreja diz que não gosta de saramago nem do seu novo livro sem sequer o ler, só mostra a credibilidade da instituição que esta a cair de podre por dentro por não conseguir esconder alguns esqueletos no armário, como a intolerância e o odio...)

Ps: não gostar da escrita de saramago com o argumento de ele ter sido o que foi no DN, não é desculpa. O que se passou aconteceu e tem de ser enquadrado historicamente!!!!
é o mesmo que dizer que o durão barroso é um pessimo presidente da comissão europeia, porque quando era novo roubou mobiliario da FDUL para a juventude do MRPP

Manuel Pinto de Rezende disse...

Duarte,

qual é o grupo social que a Igreja tem vindo, recentemente, a antagonizar, oficialmente?
qual é essa história de ódio mal escondida?

desgosto Saramago, não o que ele escreve, por causa daquilo que fez.
desgosto o que escreve por razões diferentes.
de resto, comparar o que Saramago fez no DN ao roubo de sofás de Durão Barroso é uma piada de mau gosto, duarte, sem comentários nisso.

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