A campanha que o New York Times iniciou esta semana contra o Papa (cf. aqui), vinda de onde vem, não deixa grandes dúvidas quanto à sua origem e propósito. Um grupo de americanos está já instalado na Praça de S. Pedro em Roma, munido de pancartes, a exigir reponsabilidades ao Papa.A história conta-se em poucas palavras. Entre 1950 e 1975 (note bem, a história começa em 1950 e termina em 1975: existe uma certa cultura que é especialista em desenterrar mortos; adivinhe qual é), entre 1950 e 1975, dizia, o Padre Murphy da freguesia de Milwuakee, nos EUA, terá alegadamente abusado sexualmente de cerca de 200 crianças surdas-mudas. Alegadamente, é preciso insistir, porque uma investigação judicial, que o próprio NYT refere, não conseguiu provar nada e deixou caír o caso. (A patifaria da campanha começa logo por aqui).Em 1950 Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, tinha vinte e três anos e era estudante de Teologia na Alemanha. Em 1975, tinha 48 e era professor de Teologia na Alemanha. Os alegados abusos sexuais do Padre Murphy chegaram ao conhecimento do Vaticano, e alegadamente do cardeal Ratzinger em 1996, ele era então uma autoridade dentro da Igreja Católica: Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.Por essa altura, o Padre Murphy estava velho e doente. Na realidade viria a morrer quatro meses depois. O Papa Bento XVI é hoje acusado de não ter castigado o Padre Murphy (o qual, depois da investigação judicial, as próprias autoridades civis nunca acusaram). Ainda que tenha havido alguma coisa, e o cardeal Ratzinger se convencesse dela, que castigo poderia ele aplicar ao Padre Murphy? Matá-lo quatro meses antes da morte natural? Excomungá-lo? Ou perdoá-lo?
aqui
segunda-feira, 5 de abril de 2010
pela Verdade I
quinta-feira, 11 de março de 2010
a igreja Católica e a Cultura - a cultura geral, a Verdade e o síndrome de Manada
A Igreja Católica padece dos males das instituições: depois da pujança e da prosperidade, vêm-se acometidas por todos os sectores rivais de abusos, de denúncias e teorias malinventadas sobre os excessos cometidos nas horas mais felizes.
A criação da cultura católica não se fez de um dia para o outro. A construção serena da Igreja proporcionou-lhe a força que ela ainda mantém no mundo, mesmo após todas as violações e expropriações que sofreu ao longo do século XIX e XX.
A Doutrina Católica está intrinsecamente ligada aos Evangelhos. Recentemente, um movimento apelidado de cristianismo gnóstico tem atingido a Igreja, ao culpa-la da destruição de manuscritos apócrifos que não representavam as ideias políticas dos primeiros líderes da Igreja.
Tal afirmação demonstra um total desconhecimento da realidade histórica.
A Igreja Católica constrói-se durante a queda do Império Romano. E é uma construção progressiva. Adopta os Evangelhos mais comuns entre as populações proto-cristãs e analisa os documentos religiosos que circulam entre as comunidades religiosas. Teve, obviamente, de criar critérios para a autenticidade de uns e outros. Esses critérios tinham por objectivo salvaguardar as comunidades cristãs e a Palavra de Cristo.
Toda estas discussões originaram seitas, concílios, discussões filosóficas e debates intelectuais que ainda hoje, pelos registos que nos restaram, são admirados pela nata do Pensamento, pelos teólogos e filósofos mais conceituados. E tudo isso se deu numa época em que o Império começou a apagar, definitivamente, as suas Luzes, e a tornar-se numa construção política opressiva.
Como se pode ver, a Cultura é o germine da doutrina católica, a liberdade de pensamento e investigação foi algo necessário para que os Doutores da Igreja ajudassem à criação da Igreja e da Civilização Ocidental.
A Igreja Católica desempenhou um poderoso papel nos últimos dias do Império. Deu diplomatas a Roma, até militares. Foi o bispo de Milão que impediu que os Hunos invadissem Roma.
Manteve as leis latinas, preservou os seus escritos.
Durante as eras das Trevas, em que a Cultura se apagou quase definitivamente do Mundo, foi nos mosteiros cristãos, nas comunidades religiosas, e através dos locais de ensino católicos que se copiaram, comentaram e preservaram obras de Sócrates, Aristóteles, Gaio, Marco Aurélio, Políbio, Ulpiano, etc.
Todo este ensino foi libertado dos claustros dos monges cistercenses e propagou-se pela Europa Medieval.
Criou-se assim a Europa Moderna, modernizaram-se leis, protegeu-se a pessoa e a propriedade, incentivou-se o comércio, estabilizaram-se os estados.
E reapareceu, lentamente, a Arte.
Ou não é a beleza Renascentista, da qual a Igreja Católica foi o principal mecenas, o fruto de uma contínua e paciente cultivação, sementes da intelectualidade medieval, quase toda ela formada na liberdade das universidades académicas?
Sendo que essas universidades académicas, que respondiam apenas perante o Papa, não eram nunca, por tal, motivo de violências, nem na pessoa das instituição nem na pessoa de docentes e discentes, dos soberanos medievais?
Funcionou sempre o Catolicismo como protector da Arte quando todos a desprezavam, e como refreador dos ânimos dos poderosos incultos, que tantas vezes viam na complexidade das leis canónicas e nos processualismos dos romanos uma perda de tempo. Tudo para muitos deles se resolvia melhor à espadeirada.
Não insistiu sempre a Igreja Católica que os cursos de Teologia viessem totalmente separados dos de Ciências Naturais? Proibindo até os doutores dessas áreas dar as duas disciplinas simultaneamente, para que não confundissem matérias de fé com matérias da Natureza?
Tudo isto tem prova, desde bulas até documentos legais, desde concessões régias a acordos internacionais.
E o que foi a Contra-Reforma senão a resposta à violência da Reforma Protestante?
Morreram menos homens e mulheres, ao longo da história completa da Inquisição, que as mulheres que foram queimadas por bruxaria na Nova Inglaterra.
E os mosteiros, locais de sabedoria e riqueza, de quem dependiam as populações mais pobres dos tempos antigos em busca de comida, abrigo e trabalho, que foram alvo de rapinas e destruições, durante o levantamento do movimento protestante?
Esse mesmo movimento protestante que retirou a felicidade do Homem da teoria económica e colocou o objectivo desta na força laboral? Perpetuando o erro que embocaria em Marx, e a sua teoria objectiva do valor?
Não foram os protestantes que concederam a Jaime I o direito divino dos reis? Todas estas transformações destruíram a ordem tradicional europeia, e causou esta revolução uma reacção apertada da Igreja. E sim, foram cometidos erros.
E não eram os Tribunais Inquisitórios, com edifícios e condições de acordo com a lei cristã, tantas vezes requeridos por aqueles que não queriam enfrentar a ira das instituições laicas?
Ou não foi Bocage para a Inquisição, protegido pela autoridade papal dos devaneios absolutistas de Pina Manique?
Não usaram tantas vezes os Estadistas a Igreja para os seus fins?
E quantas vezes foram reprimidos esses estadistas por isso?
Não foi João III reprimido por ter instaurado a inquisição em Portugal, quando o Papa já desconfiava que ele a usaria apenas para confiscar os bens dos judeus? E não é a Igreja uma convicta defensora dos direitos de propriedade? Ou não fosse ela a criadora do nosso Direito Privado.
Ainda assim, preservou a Igreja Católica, nos seus melhores momentos, as obras de Avicena, Averróis - ambos muçulmanos - , os últimos escritos maias, reportou a violência sobre os índios pelas autoridades públicas e pelos privados, criaram-se acordos com os reinos da Ásia, fizeram-se as primeiras trocas culturais com a China, etc.
Manteve-se na vanguarda dos direitos humanos através de Bartolomeu Las Casas, considerando indiscutível a humanidade dos índios e mais tarde dos negros.
Tudo isto a Igreja fez e criou, preservou e manteve, durante épocas de total destruição social, de instabilidade política e de destruição do ordenamento jurídico.
Quando todos negavam o valor da legalidade e da ordem, dos valores humanistas e da paz.
E ainda a acusam de ser instigadora da Guerra. Não foi a Igreja que preparou a paz de Vestefália, presidindo os delegados do papa às declarações de paz dessa guerra dos Trinta Anos que muito mal fez na Europa? Guerra essa que começa por uma insurreição ilegítima e acaba num confronto de morte entre fundamentalismos?
Não foi a Igreja Católica que, através das células na América do Sul, defendeu os últimos redutos dos índios, acossados pelos colonos? Não tiveram a mesma sorte os índios norte-americanos, nem as populações autóctones dos confins do Império Russo, protegidas pelos czares e pela Igreja Ortodoxa e aniquiladas em nome do Igualitarismo por esse profeta do Socialismo, José Estaline.
Não foram o Rei da Bélgica e o Imperador da Áustria, a pedido do Papa, os primeiros chefes de Estado a pedir a paz da Iª Guerra Mundial, quando o Mundo parecia querer despedaçar-se?
Não foi o catolicismo da Baviera o principal rival dentro da Alemanha contra Hitler?
E o protagonista da operação Valquíria, agora tão conhecida, não era ele um católico que actuava com cédulas anti-nazis católicas?
Porque não investigam essas coisas os mais radicais dos historiadores de fim-de-semana?
Ou julgam que, por dizer algo que já vem explícito nos manuais escolares, em sentido de insurreição oficial contra a cultura católica, são os verdadeiros intelectuais? Atacar a Igreja sempre foi tão fácil como improdutivo. É que a mentira e o radicalismo nunca deram frutos.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Caritas in Veritate
In his new social encyclical, Caritas in Veritate, Pope Benedict XVI has strongly reaffirmed and deepened the connection between morality and the free economy. Benedict has repudiated practices that led to a global economic crisis in which the love of truth has been abandoned in favor of a crude materialism.
Market economy and ethics - Joseph Ratzinger
This determinism, in which man is completely controlled by the binding laws of the market while believing he acts in freedom from them, includes yet another and perhaps even more astounding presupposition, namely, that the natural laws of the market are in essence good (if I may be permitted so to speak) and necessarily work for the good, whatever may be true of the morality of individuals. These two presuppositions are not entirely false, as the successes of the market economy illustrate. But neither are they universally applicable and correct, as is evident in the problems of today's world economy. Without developing the problem in its details here — which is not my task — let me merely underscore a sentence of Peter Koslowski's that illustrates the point in question: “The economy is governed not only by economic laws, but is also determined by men...”. 5 Even if the market economy does rest on the ordering of the individual within a determinate network of rules, it cannot make man superfluous or exclude his moral freedom from the world of economics. It is becoming ever so clear that the development of the world economy has also to do with the development of the world community and with the universal family of man, and that the development of the spiritual powers of mankind is essential in the development of the world community. These spiritual powers are themselves a factor in the economy: the market rules function only when a moral consensus exists and sustains them.
domingo, 24 de maio de 2009
Catolicismo, protestantismo e capitalismo
E isso me leva à segunda grande influência dos católicos escolásticos - a teoria das leis e dos direitos naturais. Certamente o direito natural era um grande obstáculo ao absolutismo estatal, e começou com o pensamento católico. Schumpeter mostrou que o direito divino dos reis era uma teoria protestante. A teoria das leis e dos direitos naturais também fluiu dos escolásticos até os filósofos morais franceses e britânicos. A conexão foi obscurecida pelo fato de que muitos dos racionalistas do século XVIII, sendo amargamente anti-catolicismo, se recusaram a reconhecer seu débito intelectual para com os pensadores católicos. Schumpeter, de fato, afirma que o individualismo começou com o pensamento católico. Assim: "a sociedade foi tratada (por Santo Tomás de Aquino) como uma questão completamente humana, e mais ainda, como uma mera aglomeração de indivíduos que ocorre por causa de suas necessidades mundanas... o poder do monarca derivava-se do povo... por delegação. O povo é soberano e um monarca indigno poderia ser deposto. Duns Scot chegou ainda mais perto de adotar uma teoria do contrato social do estado. Este... argumento é notavelmente individualista, utilitarista e racionalista ..."[2] Schumpeter também enfatiza a defesa da propriedade privada feita por Tomás de Aquino e menciona em particular o espírito anti-estatizante do escolástico Juan de Mariana, 1599. Ainda sobre eles, Schumpeter também fala sobre a adoção do preço de mercado como sendo essencialmente o preço justo, a teoria da utilidade, o valor subjetivo, etc. Ele diz que, enquanto Aristóteles e Scot acreditavam que o preço normal de concorrência era o preço justo, os escolásticos tardios espanhóis identificavam os preços de mercado com qualquer preço concorrencial, como no caso de Luis de Molina. Eles também tinham uma teoria para o padrão-ouro, e se opunham ao enfraquecimento da moeda. Schumpeter ainda diz que de Lugo desenvolveu uma teoria sobre os riscos dos lucros empresariais, a qual, é claro, só foi completamente desenvolvida na virada do século XX e depois.
da democracia em Portugal
domingo, 29 de março de 2009
A Religião do Látex
