sexta-feira, 29 de agosto de 2008

no Brasil como em Portugal


Apesar de se definirem pelo seu contrário, como na foto do post abaixo, os jovens socialistas brasileiros conhecem o fascismo mais como xingamento do que como teoria. Não duvido que muitos deles se identificariam com o fascismo caso sua literatura fosse apresentada sob outro nome. Preparando o solo europeu para receber os cadáveres de milhões, Mussolini escreveu em La dottrina del fascismo:

Anti-individualista, a concepção fascista é pelo Estado; e é pelo indivíduo enquanto este coincide com o Estado, consciência e vontade universal do homem em sua existência histórica. É contra o liberalismo clássico, que surge da necessidade de reagir contra o absolutismo e exauriu sua função histórica quando o Estado se transformou nessa mesma personificação da consciência e da vontade popular. O liberalismo negava o Estado em nome do indivíduo particular. O fascismo reafirma o Estado como a realidade verdadeira do indivíduo. E se a liberdade deve ser o atributo do homem real e não desse fantoche abstrato pensado pelo liberalismo individualista, então o fascismo é pela liberdade. Pela única liberdade que tem um valor sério: a liberdade do Estado e do indivíduo dentro do Estado.

Não é esse mesmo individualismo liberal que Che Guevara combatia?: “O individualismo, na forma da ação individual de uma pessoa solitária no meio social, deve desaparecer em Cuba. No futuro, o individualismo deve ser a utilização eficiente de todo o indivíduo para o benefício absoluto da coletividade”.

E enquanto Mussolini se opõe ao “socialismo que interpreta o movimento histórico como a luta de classes e ignora a unidade do Estado no qual a classe se funde em uma única realidade econômica e moral”, ele entende que o fascismo consegue atualizar as aspirações socialistas no Estado:

“Dentro da órbita do Estado, o fascismo reconhece a verdadeira exigência que dá origem ao movimento socialista e sindicalista e os faz valer no sistema corporativo dentro do qual os interesses se conciliam na unidade do Estado”.

Nesse sentido, é muito apropriado chamar o fascismo de nacional-socialismo. Meu medo é que muitos jovens brasileiros já sejam fascistas sem perceber.

in Ordem Livre

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

a paz armada


Após a queda do muro de Berlim, mais uma ameaça caminha para perturbar a paz europeia, e mais uma vez ela aproxima-se vinda de Oriente. Ao longo da história da civilização ocidental, vários têm sido os perigos que muitas vezes levaram a uma calamidade total. Invasões, epidemias, massacres. O rápido crescimento da civilização ocidental deu-se, em grande parte, devido a estas catástrofes. A expansão ultramarina, o conceito de democracia, de estado de direito, o progresso industrial e bélico, formaram-se todos na necessidade de se defenderem e ripostar contra um oriente que tantas vezes o entusiasmava e tantas vezes o amedrontava.
Assim, cedo começou a formar-se um equilíbrio difícil entre as potências ocidentais, principalmente europeias, de forma a ver qual delas era a mais poderosa e maior representante dessa mesma civilização.O século XX viu o delicado equilíbrio de forças desaparecer, e assistiu a uma guerra anunciada que traria a destruição de toda a Humanidade, não fosse a mesma cultura da ocidentalidade, a sua maior força, a deter a ameaça do comunismo e da sociedade totalitária.
Hoje, no século XXI, o perigo afigurou-se ultrapassado, e os esforços para preservar a liberdade externa tão carinhosamente preservada pelos nossos antecessores não foram revigorados.
Tudo indica que o século XXI será o século dos autoritarismos, tanto pela herança do século anterior, como pela necessidade que surgirá dentro das sociedades ocidentais e ocidentalizadas em combater esse mesmo perigo.Forma-se agora, a leste, uma situação que lembra a europa do Imperialismo alemão, a Europa da ameaça prussiana.
Estamos perante uma paz armada, entre democracias temerosas e ditaduras fortalecidas pelo jogo diplomático.

ambiguidade internacional

"Muchos estados se solidarizaron con el Tíbet desde la invasión china. India acogió a la mayor parte de los emigrados y ofreció tierras para construir monasterios e establecer la nueva sede del Dalai Lama. Varios países europeos, Australia y Japón abrieron oficinas para alojar representaciones del Gobierno Tibetano en el Exílio. Nepal y Estados Unidos incluso apoyaron a la resistencia local con armas, entrenamiento y servicios de inteligencia. Sin embargo, ningún estado ha reconocido al Gobierno Tibetano en el Exílio. En cambio, todos han ratificado la soberanía china."

in Historia y Vida, nº481

domingo, 24 de agosto de 2008

o seio repleto

ao meu colega Ary F. Cunha, adversário e aliado de tantos debates, professor em part-time, em resposta ao seu texto publicado no blogue da Sociedade de Debates

No Brasil, o Presidente Lula da Silvas criou uma bolsa família especialmente destinada aos habitantes do Nordeste, cujo PIB per capita era somente 28% do equivalente ao Sudoeste.
O Programa foi desempenhado com sucesso, gerando uma descida nos índices de miséria do povo brasileiro daquelas partes.
Tomado como exemplo por parte de alguns analistas económicos nova-iorquinos, e mesmo por parte da ONU, o Bolsa Família tem alguns condicionalismo relevantes que são, na sua maioria, relegados para segundo plano.
De facto, proporcionam às zonas "esquecidas" do Brasil um rendimento extra, fundamental para que haja algum desenvolvimento na área. O problema é que esse desenvolvimento é pago com o trabalho da restante população brasileira que, a meu ver, não tem passado tão bem nas duas últimas décadas.
Estes condicionalismos não estão a ser fiscalizados pelo governo convenientemente, apesar dos esforços federais em manter bem investido o seu dinheiro, vigiando os cidadãos com satélites e métodos afins, considerados igualmente de exemplares.

"Quando se usa um cartão de crédito, a empresa responsável é comunicada sobre o quanto deve pagar ao comércio por um sistema que utiliza linha telefônica. Em locais sem essa estrutura, a comunicação pode ser feita via satélite ou rádio", afirma Nina Farnese, técnica do projeto pela Caixa Econômica Federal, uma das entidades que faz parte do acordo de cooperação técnica assinado entre os dois países. - in Terra Magazine.

Assim, o Bolsa Família tornou-se, como era de prever, no rendimento per se dos nordestinos mais pobres. A educação não aumentou o que se esperava, apesar de o número de faltas às aulas ter diminuído o rendimento escolar continua nas ruas da amargura, e o dinheiro não serviu de incentivo para novas oportunidades, criando-se mais uma epidemia de "subsídio dependência".
Portanto, qual é a grande diferença entre o nordestino antes do subsídio, e este nordestino engordado pelo subsídio?
É que dantes, os grandes terratenentes ou latifundiários empregavam facilmente mão-de-obra barata e desprezada pelas autoridades, que jogava corruptamente com esta tradição de labor.
Agora os terratenentes mal empregam qualquer tipo de mão-de-obra, porque ninguém quer trabalhar. Agora, os preços dos alimentos por todo o Brasil, com especial repercussão no Rio de Janeiro, aumentam a cada mês, e um dia em que essa maminha gordinha e redondinha que é o Estado secar, o Nordeste ainda vai ter mais dificuldades, porque os grandes empresários já terão, por essa altura, investido as suas poupanças noutros sítios. Sim, porque o estado dá e tira. Isso determinará o fim do mercado agrícola que enriquece as cidades de Pernambuco e Baía e Recife, que terão de viver do pululante turismo sexual que se faz naquela zona. Estas são as consequências de um Estado que, em vez de abrir as economias das regiões e esforçar os seus meios na defesa das liberdades do cidadão, se limita a distribuir "equitativamente" recursos, algo que é muito fácil, é como disfarçar a ferida com, vá lá, cosméticos. Cosméticos capazes de também caçar votos.

Outros problemas da recondução Estadual podem ser vistos por aí fora, no mundo. De facto, o Estado não só contribui para a obesidade do cidadão, como também lhe acabará por programar um "reduce fat fast". De facto, comida está mais cara, não é? Vejam lá o vídeo e depois prossigam.

Nos EUA, o candidato presidencial que planeava a política social que entrou em grande voga e mediatismo está agora a atrasar-se nas sondagens.
De facto, um sistema de duas rondas tem destas coisas, os cidadãos começam a pensar melhor se querem um presidente que não só vai criar mecanismos de saúde mais flexíveis, mas que pensa em criar outros sistemas de subsídio estadual que serão o problema de outros presidentes no futuro, e que vai obrigar a classe média americana a pagar a vida de outras pessoas, contribuindo assim para a dead end que é a actual Segurança Social Europeia.
Infelizmente a alternativa a Obama é, nas palavras de Stiglitz, o representante de um velho corporativismo em trajes novos.

Em Portugal, o RSI aumenta 427% em relação aos números de 2004, mantendo-se Portugal com os piores índices de pobreza na União Europeia.
União Europeia que acordou para os problemas das políticas passadas.
A Suécia acordou para os malefícios da política social até aí seguidos, e já mudou o Executivo social-democrata para um executivo de Direita.
A restante Escandinávia fez ou está em vias de fazer o mesmo mesmo.

De facto, todos este "limousine-liberals" têm meios complexos de ver o actual estado de Portugal. O que não é muito difícil, pois está riscado de estradas vazias e desnecessárias, temos actualmente a rede de estradas mais prolífica da Europa, o que seria bom caso o país não fosse tão pequenino, e temos uma educação que custa os olhos da cara ao Estado, e que não apresenta o mínimo de resultados.
Faz-nos pensar se seremos todos assim tão libertários ou anarco-capitalistas, ou apenas liberais à moda antiga.

sábado, 23 de agosto de 2008

Liberdade e Mercado - Rodrigo Adão Fonseca

Um liberalismo bem estruturado não sacraliza imediatamente o mercado: o mercado é, do ponto de vista liberal, uma construção mediata, uma consequência objectiva daquilo que é a sua componente subjectiva, ou essência, daquilo que lhe é prévio: a tradição liberal preocupa-se, sim, com a pessoa e com a protecção da sua esfera de vontade, do seu exercício de liberdade e arbítrio. O “mercado” mais não é do que uma sobreposição de espaços difusos, onde os cidadãos/pessoas/indivíduos/agentes (ou como lhe quiserem chamar) projectam as suas escolhas, mais ou menos livres, mais ou menos informadas, mais ou menos medidas, mais ou menos racionais, mas sobretudo, onde realizam os seus anseios, e onde, obviamente, recolhem - ou antes, deveriam recolher - os benefícios, ou sofrem - ou antes, deveriam sofrer - as consequências dos seus actos e decisões. Os mercados são, nesta perspectiva processualista, neutros, porquanto não têm capacidade volitiva própria; os mercados amplificam apenas os ecos de milhões de actos e decisões individuais.

Mas, afinal, os que tanto criticam a actuação livre nos mercados, o que têm em mente? Obviamente, uma outra forma de mediar as relações entre os cidadãos/pessoas/indivíduos/agentes, ou como quiserem chamar-lhes. Limitando, ou até agregando, a tutela do arbítrio. Retirando ao máximo a subjectividade do processo de decisão.

Não sejamos, porém, ingénuos. Se os mercados por vezes projectam decisões que penalizam cirunstancialmente uma boa parte dos seus agentes, será que o cidadão comum ficará mais protegido pela limitação/supressão do arbítrio individual, transferindo-o/agregando-o em decisores tipicamente estatais, os tais que optarão por nós, “para o nosso bem”? Miguel Portas, esta semana, na Visão, dizia que continua “(…) a pensar que é possível ao Homem construir uma sociedade de abundância, em que o Estado seja dispensável e em que a sociedade seja capaz de se organizar e de se auto-administrar, distribuindo essa abundância de forma igualitária, para que cada um possa seguir os seus caminhos sem atropelar o próximo (…) é possível um outro mundo assente, não na propriedade, ou no que se tem, mas no que se pode ser (…)”. Será que a generalidade dos cidadãos comungam desta forma de estar, desta crença numa sociedade pós-materialista, será que estão dispostos a alienar a sua liberdade individual, o seu arbítrio, ainda que possa por vezes este acarretar consequências negativas, para se entregar na busca desta sociedade “auto-organizada” e “auto-administrada”, paradoxalmente pretensamente abundante, na ausência de propriedade?

As sociedades mais livres são aquelas que, ao longo da História, têm conseguido, em substância, na escassez - que não é um dado extrínseco, mas um estado intrínseco ao homem, resulta da sua própria natureza uma permanente insatisfação (e que a Utopia de Miguel Portas ignora) - produzir abundância, as sociedades bem sucedidas são as que correm riscos, as que libertam os cidadãos, as que dispensam as mediações, e promovem a regulação como ideia subsidiária. São as que apostam nos cidadãos, e potenciam a sua capacidade criativa e de decisão. O que nós precisamos é de cidadãos mais preparados, mais activos, mais capazes, mais inventivos, mais autónomos, que saibam governar-se, enfim, substancialmente mais livres, precisamos sobretudo de melhorar a nossa subjectividade para nos afirmarmos num mundo cada vez mais aberto e, por isso, mais competitivo, e não avançar para soluções que objetivem a pessoa, desperdiçando e concentrando as suas capacidades em entes colectivos, necessariamente aprisionáveis, necessariamente vulneráveis à captura dos que perseguem Utopias que desprezam os valores do cidadão comum.

Prefiro existir num “mundo imperfeito”, que valorize a subjectividade, o risco, a incerteza, os valores do trabalho e do mérito, a inovação, e acarrete a penalização do fracasso, ainda que tenha, por viver em sociedade e na relação com os outros, que sofrer as consequências de fracassos que não são os meus, do que perseguir, subjugado, o “Paraíso na Terra”, e alienar-me, na crença de uma pretensa abundância igualitária.


esta foi direitinha para a secção de livres leituras...

uma rapariga de doze anos levar-nos-á à revolução

O Mundo só vai melhorar quando pararmos de olhar para os desprivilegiados como posters.

Como fardos somente sustentados pela nossa caridade.

Quando começarmos a olhar as pessoas como se fossem pessoas, e a dar-lhes responsabilidades que exigimos aos restantes adultos.

Quando nos atrevermos a olhar para além da estatística.


Ver o site:
The Girl Effect
para mais informações.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

os números do RSI - autora convidada

"É patente que os beneficiários do RSI têm vindo a aumentar consideravelmente, podendo apontar-se a causa para a actual crise económica, que indubitavelmente tem-se reflectido numa alta de preços crescente, situação à qual nem todos reúnem “instrumentos” necessários para subsistir sem o apoio social. A atribuição do RSI é, ou pelo menos deveria de ser presidida por um plano de reinserção social, cujo principal objectivo é possibilitar o acompanhamento do beneficiário rumo ao seu ingresso no mercado de trabalho, de modo a encurtar o quanto possível a sua situação de dependente do rendimento social de inserção. É notório que a execução destes planos de reinserção ficam muito aquém do desejável, mostra-o os cerca de 312 mil beneficiários registados em Dezembro de 2007, aos quais se juntaram na primeira metade deste ano mais 23 mil, que tornam os números ascendentes num curto espaço de tempo.

De facto a lógica do RSI está desvirtuada. É necessário proceder a um rigoroso levantamento das lacunas que inviabilizam os projectos de reinserção, atentando eu que não será difícil. Qualquer um reconhecerá como situação inexequível, o caso de uma assistente social com cerca de 200 processos de utentes, realizar um trabalho frutífero no que toca aos planos de reinserção do RSI. E nesta lógica atrevo-me a enumerar um dos males.

Voltando aos números do RSI, estes agravam-se ao ter em conta que deles fazem parte uma quantidade inconcebível de jovens e, quando digo jovens, não só me refiro às idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos (período em que deveriam apostar fortemente na carreira profissional), mas como também aos inúmeros casos de menoridade.

As facilidades inerentes à aquisição do RSI, bem como em mantê-lo ao longo dos anos tornou-se numa não procura por alternativas por parte das classes mais desfavorecidas. Afinal, quando nos concedem um salário quase como oferenda a alternativa já foi encontrada à muito! Repito que o panorama toma proporções avassaladoras quando falamos em jovens menores que se deitam nos panos quentes do RSI, caso cujos planos de reinserção se tornam insuficientes para reverter tais situações num futuro a longo prazo.

É necessário rever o modo como a politica social do RSI está a ser empregue e se os objectivos que lhes são subjacentes estão a ser concretizáveis, de outra forma estar-se-á a hipotecar não só os contribuintes, bem como a autonomia dos próprios beneficiários.

A assistência não está em dar esmole indiscriminadamente!"

Vânia Patrícia Almeida Oliveira, também publicado no Entrelinhas.

domingo, 17 de agosto de 2008

humor perigoso - a opinião de um mestre

O Risco como facto de aceitação.

The humor that makes me laugh hardest is the material I know would offend or insult someone else. Apparently I am not alone in this view because my entire career is based on that universal law. The Dilbert comics that work best are the ones you can imagine your boss or coworker looking at and saying, "Uh-oh. I think that's me."

But offending isn't enough. The audience gets more out of humor if the messenger is putting himself in danger. When Dilbert first launched, I was still working my day job. Readers loved knowing that I was on the verge of getting fired every day. The order to fire me was actually given at one point, but in the end my employer decided to give me hopeless assignments and wait for me to quit. They figured it would look better.

Dilbert is still a dangerous job. This week I got a bunch of angry letters because of a comic where Alice says she realized her job was like a dung beetle trying to mate with an epileptic cow. I think I was added to a few extra death lists. If you laughed at that comic, it's probably at least partly because you knew I was taking a risk in creating it.

ver o resto aqui, no Scott Adams Blog

porto blue jazz

Há noites que começam muito bem. Já tinha conhecimento que a Porto Lazer estava a cultivar os habitantes da Invicta com boa música, e após perder os concertos de Herbie Hancok e Mário Laginha (que parece que brilhou na sua noite), resolvi ser um cidadão digno e ir ver o que se passava nos jardins do Palácio de Cristal.
E comigo, foram as minhas cidadãs favoritas, a minha mãe e a minha irmã, que dançou comigo após alguma insistência minha.
Começou levemente, com um solo de sousaphone (desconhecia o que era um sousaphone) de Sérgio Carolino, e depois entrou o saxofone de Mário Marques, a dar o mote para Rúben Santos deslumbrar no trombone.
Foi o caraças para anotar os nomes, mas valeu a pena.
Na bateria estava um senhor que, bem me parecia tê-lo visto antes, mais não era que o baterista Michael Lauren.
The Postcard Brass Band.
E depois? Depois... depois foi Jazz, Blues, uma variada mistura de influências, muitas reminiscências de épocas passadas, autores famosos, filmes vistos, obras contempladas.
Hoje diverti-me.

Pontuação final: 7/10. Comentário: next time, i'll pay to see this guys.

PS: Alguém se lembra daquele grande filme, o Swing Kids? Não me parei de lembrar deles durante o show... Eu devia ter nascido nesses tempos.

domingo, 3 de agosto de 2008

crónica do reino dos algarves (causas da queda desta província)

Depois de 15 dias de descanso nas praias da cidade de Albufeira, 15 dias de inutilidade, votadas ao descanso, à leitura, aos gelados e aos franguinhos da Guia, estou de volta ao meu caos familiar.
Não trago fotografias nem grandes lembranças. Fui acompanhar a minha mãe e irmãos numas férias bem merecidas, depois de um ano difícil mas bem vencido.
De facto, não aprecio muito o Algarve enquanto destino de turismo de praia. O Algarve é um sítio belíssimo, fantástico, se fugirem das praias.
Aconselho a todos uma visita a Silves, cujas muralhas guardaram, em tempos, uma das últimas grandes cidades islâmicas na Europa, do ponto de vista cultural e social e económico. Eu próprio já lá fui umas 2 vezes, e sempre encontrei coisas novas. Faro é uma cidade muito bonita também, onde se come bestialmente, se soubermos procurar e aguentar a morrinhice dos algarvios, os piores serventes de mesa à face da Terra.
Sagres é um grande montão de calhaus, e por muito que procurem a escola do Infante, o mais provável é ficarem com a sensação que aquilo não é porra nenhuma, e não passa de um pseudo-esquema para atrair turistas desejosos de uma mística de um Império que nunca existiu.
Castro-Marim, Vila Real de Sto. António, a própria Albufeira, a belíssima serra algarvia, se conseguirem ficar lá hospedados um dia para apreciar a flora única, são locais de visita obrigatórios e esquecidos do Algarve. Mas isso não vem nos panfletos.
De facto, o turismo do Algarve é uma valente merda.
Por muito que se tenha lutado contra os abusos descontrolados da urbanização descontrolada, o Algarve continua a perder a corrida contra a descaracterização cultural.
Depois de se tornar o pousio para a classe média baixa do norte da Europa, o Algarve procura elitizar-se antes de ficar com o nome manchado com o rótulo de destino turístico barato.
O Algarve sofre por estar cheio de algarvios, e esses algarvios não têm poder nenhum sobre a sua terra.
Tornou-se o Algarve numa espécie de Egipto dos tempos romanos, uma região portuguesa especialmente cuidada e tratada pelos Governos centrais. As cenas do Allgarve e todos os abusos consequentes vêm daí. O poder local, subserviente e dependente, é formado por uma classe de filhinhos da putinha, gente muito rasca, fruto de cruzamentos incessantes entre a população, mantendo aquela insuspeição mourisca e uma certa anti-portuguesice.
Esse poder local, que precisa de Lisboa, porque aprendeu, aquando da última crise económica que varreu o Algarve, que precisa de Lisboa para chamar os portugueses para o esforço patriótico de encher o hotéis e pensões algarvias, surpreendentemente abandonadas pelos cidadãos ingleses e alemães, fartos das crónicas subidas de preço. Agora, que tudo voltou ao normal, o Algarve já retomou o caminho, pensa-se.
Eu penso que não.
Se querem ser servidos rapidamente num restaurante, na área de Faro a Albufeira, procurem um restaurante brasileiro, chinês, ou cujos funcionários sejam morenos o suficiente para se ter a certeza que não são portugueses do Algarve. O único algarvio simpático, alegre, competente tanto na cozinha como na arte de bem receber, era um que havia nascido em Trás-os Montes.
A polícia algarvia é constituída por dois tipos de homens. O primeiro, homenzinhos pequeninos com barretes da GNR, serve para pedir indicações caso precisem saber onde é a praia. Caso queiram saber onde fica a rua onde se vende bugigangas para comprar para toda a gente lá em casa, eles já não conseguem. Não lhes pagam para isso, peço muita desculpa.
O outro tipo é formado por gorilas de boina, que vestem de fato-macaco preto, cuja única função é andar de um lado para o outro a falar numa língua desconhecida (o algarvio é, de facto, um dialecto) e que servem para nos escondermos atrás deles quando um inglês nos ameaçar com uma garrafa quebrada.
O comércio algarvio é em tudo igual ao do restante país, excepto na proporção. De facto, a qualidade dos produtos é duas vezes pior, e duas vezes mais caro. Abundam os senhores das tatuagens temporárias, os marroquinos dos bonecos luminosos, com cenas de néon na boca que os fazem parecer retardados a mastigar pirilampos, as pretinhas das tranças, adoro essas pretinhas, levaram-me 10 euros por uma merdice que puseram no cabelo da minha irmã, que eu próprio voltei a pôr quando aquilo se descolou. Há também os pretões dos óculos, senegaleses fundamentalistas, sendo que um deles chegou a amaldiçoar-me quando eu o mandei dar uma volta, irritado de negar a décima tentativa de negócio. A dada altura, oferecia-me a irmã e 30 camelos, se eu aceitasse comprar um par de óculos por 10 euros. Recusei, obviamente, por os óculos serem feios e por não ter espaço para pôr 30 camelos.

No centro de Albufeira, um senhor muito barbudo (estilo Karl Marx), apresentava num pequeno pavilhão patrocinado pela Câmara de Albufeira, com uma mensagem a dizer qualquer coisa contra a globalização (aquelas frases feitas) num painel de cartão forrado a latas de refrigerantes.
Como eu estava há vários dias sem discutir com o Francisco Noronha e a Daniela Ramalho, pessoas a quem eu gosto de chatear como o caralho, resolvi soltar umas boquinhas àquele Pai Natal dos sovietes.
"É a Globalização que lhe permite comprar todas essa latas de refrigerante" disse eu, e pensei, "fodi-o".
"Não, é a Globalização que me obriga a comprá-las" e pronto, agora fica tudo a pensar que o velhinho me encurralou. Eu acho simplesmente que o ancião podia muito bem ter comprado uma água Luso, em vez de gastar o dinheiro da Câmara para comprar Coca-Colas e Fantas. E depois, ainda fiquei arrependido de não lhe perguntar se não era a globalização que trazia todos aqueles turistas à sua cidade que lhe compravam todas aquelas pulseirinhas capitalistas que ele vendia à má rês a par da exposição. Pior, ainda foi o homem que me disse "Sabe ao certo o que é a globalização? Sabe o que é concretamente? É as empresas virem pra cá, comprarem tudo, e depois despedirem toda a gente".

É que o Algarve não sofre apenas de políticas governamentais estúpidas, de autarcas idiotas, de um turismo burro e dos turistas idiotas. O Algarve agora tem manifs anti-globalização.

domingo, 20 de julho de 2008

vós sem mim (durante 15 dias)

desejo-vos a todos um belíssimo verão.
muito cuidado com as alforrecas nas praias.

quem sabe vamos todos ver um bom concerto, hein? tipo este


quem for ao sudoeste mande-me um toque...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

finding roy orbison

Caminho ofegante pelas estreitas ruas de uma aldeola no Mali. No centro do pequeno povoado, está um enorme pinheiro manso, que contrasta coma desolação desértica do local. Todas as pessoas estão pintadas de vermelho na cara e nos polegares, e insistem em mostrar-mos. Estarão a incitar-me a trepar à árvore? Tomo-o como um sim, e começo a fazê-lo. Mal ponho a mão no primeiro ramo, solta-se da frondosa folhagem uma enorme multidão de escorpiões. Estes têm as suas pequenas pinças avermelhadas, e começam então a pintar-me a cara e os polegares. Marge aparece e começa a repetir a palavra "écloga" até desmaiar.

"Acordo sempre sobressaltado deste sonho", pensei. "Talvez deva começar a pensar em não trepar a árvore, já não durmo decentemente à 15 dias."
Preparei-me com aprumo, um bom rapaz quando sai à rua deve mostrar sempre um ar de graça. Penteei-me com os dedos, vesti o casaco menos velho, e parti para a reunião com o editor.
Levava o manuscrito debaixo do braço, e tentava aquecer-me com um pequeno cachecol. Se algum dia forem a Berlim, não se impressionem das semelhanças da palavra Bär (urso em Alemão) e Berlin. Os próprios cidadãos acham que a sua cidade era dantes um ponto de encontro de ursos. De facto, para suportar o frio berlinense, uma camada extra de pêlo e gordura ajudariam muito.
O editor estava num café com esplanada à beira da Unden Der Linden, que até à uns anos era um local florido, até Hitler ter cortado todo o tipo de flora para o seu povo poder ver os seus tanques de guerra desfilar.
- Saudações, Herr Klein! (Herr Klein era, de facto, muito pequeno)
- Saudações! Ligou-me a querer ver-me meu amigo.
- Tenho um trabalho novo, vai permitir-nos saldar todas as dívidas e pagar a renda.
- Diga meu caro, bitte!
- É algo totalmente novo, que vai fazer com que a Teoria Pura do Direito de Kelsen pareça um hit de Verão!
- Eu editei Kelsen. De facto, foi um sucesso estrondoso, não se via casal ou família que não andasse com ele debaixo do braço. Ganhou muito dinheiro, e nunca mais o vi. Entregou-se à má vida. Tu sabes, dinheiro, mulheres, noites, drogas. Acho que em Viena ninguém o parou. Ouvi até dizer que tinha feito uma Constituição aos austríacos. Um homem não pode descer mais baixo que isso para ganhar uns trocos. Os austríacos... enfim, depois disso foi o fim. Deambula pelas ruas de Munique a pedir esmola, faz uns trabalhecos em troca de comida e vinho. Não queiras ir pelo caminho da fama de Kelsen rapaz, o fim é sempre o mesmo. A estalagem. Ou a farmácia. Ou o prostíbulo. Ou o exército. A frente na Rússia pede mais homens aparentemente.
- Isto é algo superior. Eu bem me lembro de ver o meu pai a recitar longas passagens da Teoria Pura do Direito diante da minha família. O idiota do meu tio detestava. A beleza do capítulo sobre as fontes do Direito... A Lei, a Lei! Toda aquela pancada naqueles mariquinhas dos jusnaturalistas. Um pródiga pândega. Mas isto é mais, meu caro, é mais!
- De que trata, meu jovem?
- Descobri.
- Descobriste o quê?
- Ele, já sei onde Ele está.
- Ele? quem é ele?
- Ele com o maiúsculo...
- Deus? o que queres dizer com isso?
- Schiu Herr Klein, ninguém deve saber disto...
- Desculpa meu caro... mas... Nietzsche não o matou? Todos sabem disso...
- Tenho provas que é mentira. E sei finalmente porque o fez.
Herr levou-me para o escritório. Com tantos Gestapo disfarçados de garçons em Berlim por essa altura, de repente pareceu-me má ideia ter saído de Paris após a invasão nazi e ter feito o percurso inverso dos restantes intelectuais. No entanto, na altura pareceu-me muito lógico ir para a capital do III Reich, o único sítio em toda a Europa Ocidental que não possuía um militar alemão munido de uma SturmGewehr pronta a nos abrir um orifício extra ao dobrar da esquina.
Expliquei então a Herr Klein todo a minha inicial pesquisa. De facto, o filósofo oficial do regime não tinha assassinado Deus, como todos pensávamos. O grande busílis desta questão é simples. Porque razão o filósofo matou o Criador? Após várias pesquisas, encontrei uma razão possível. Deus tinha dormido com a mulher de Nietzsche, o que é uma muito natural, dada a apetência natural do Criador para possuir virgens casadas (sabia-se que Nietzsche nunca tinha consumido o seu casamento, visto que se achava demasiado perfeito para a sua própria mulher).
- Queres dizer que... Aquele que dá significado à existência ainda está vivo?
- Sim, mas Hitler não pode saber... ou acaba o trabalho.
- Mas como Nietzsche não o apanhou?
- Deus gosta muito de bricabraque, fazer arcas e coisas dessas. No entanto, é extremamente impaciente, e faz a maioria do seu trabalho às escuras. Só depois de criado o Universo ele disse " Faça-se Luz!" como está escrito no Génesis. O mais provável é Nietzsche ter usado a ajuda de outro inimigo de Deus, um empirista qualquer, e lhe tenha batido com uma tabula rasa.
- Como escapou ele?
- Com a ajuda de Karl Popper. Ele simplesmente falsificou todas as provas da sua sobrevivência. Deus está, neste momento, escondido no Vaticano.
Nesse momento, Herr Klein estacou e fitou-me serenamente. Tinha uma arma na mão. Disse-me:
- Finalmente alguns resultados. Fizeste muito pelo regime meu amigo. Está na hora de seres recompensado.
- Herr Klein.. era o senhor o empirista desconhecido! Mas como?
- Eu era jovem... Carl Schmitt era mais velho e mais bonito. Eu sentia-me atraído por ele, era uma relação imprópria para a nossa sociedade, mas ele era o meu professor e eu o seu embevecido aluno. Quando os nazis fizeram o que lhe fizeram... a sua obra, usada para os piores fins... Eu já não acreditava em nada. Por isso, ajudei-os.
- Não há mesmo chance Herr Klein? Não há perdão?
- O mundo continua vazio e merdoso, haja Deus ou não. Para ti, Herr, não há perdão.
Soou em disparo. Fechei os olhos, encomendando a minha alma Àquele que afinal ainda vivia... Quando os abri, deparei-me com uma cena estranha. Vários homens de púrpura estavam de volta do corpo de Herr Klein, tinham arrombado a porta.
De entre eles, sobressaia um que usava um alto chapéu.
- Sabes quem eu sou, paisano? - pergunta-me o homem do chapéu, com um temível sotaque siciliano.
- Vossa Eminência... sois aquele a quem chamam o Papa...
- É verdade. Johny boy, não vais chibar aos chuis o que acabaste ver, capisce?
- Sim...
- De facto, nada disto é pessoal. Nada disto deve ser pessoal. É tudo uma questão de negócios, o Padrinho lá em Cima tinha uma dívida a saldar com este traste.

Foram embora pesadamente, levando o pequeno corpo de Herr Klein escondido na minúscula arca frigorífico, para o qual foi dobrado em 5 partes iguais de forma a caber lá. Quando iam a sair, perguntei ao boss:
- Papa... poderá haver perdão, agora que Ele cá está?
- Há sempre um perdão filho. Só precisas procurar por ele em ti próprio, e deixar que os outros o façam. Bona Sera.
- Bona Sera...
Desci calmamente os degraus do prédio onde há pouco estava o escritório de Herr Klein. Estava claramente na altura de seguir para uma cidade mais livre. Talvez Estalinegrado, Petrogrado ou mesmo Moscovo.
Comia distraidamente um apfell strudel enquanto seguir pela Unden Der Linden...

terça-feira, 24 de junho de 2008

o derradeiro boneco


o Boneco Jesus (acoselho-vos a entrar no site e a ver a descrição desta preciosa peça, em tudo semelhante ao nosso Salvador, especialmente pelo facto de lhe faltar, como é natural, qualquer tipo de traço racial semítico, Graças a Deus)

o inimigo público

"FEMINISTAS MODERNAS VÃO QUEIMAR IMPLANTES DE SILICONE NA GULBENKIAN

De 26 a 28 de Junho vai realizar-se um Congresso Feminista na Fundação Calouste Gulbenkian, organizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), cujas organizadoras prometem não queimar soutiens, para contrariar o estereótipo. “Nõs somos mulheres modernas. Vamos destruir o novo símbolo da sujeição da mulher à vontade masculina: os implantes de silicone. Mas, como eles são resistentes ao calor, vamos explodir duas tetas falsas, como os taliban fizeram aos dois budas de Bamyan”, explicou Maria Teresa Horta, uma das feministas envolvidas no congresso. “E aconselhamos vivamente todas as mulheres a verem o filme O Sexo e a Cidade e a não comerem pipocas no cinema, mas testículos de porco salteados, como forma de mostrar o desprezo pela pseudo-superioridade masculina”, concluiu. VE [Vítor Elias]" in Inimigo Público

o que eu não teria dado para ter sido eu a escrever isto. Estou a pensar seriamente desistir de Direito para escrever para o Inimigo Público.

Ver o resto da discussão à volta deste artigo aqui

domingo, 22 de junho de 2008

consolatio

André Vasques

finge que não me vês
passa por mim
através de mim,
e não partilhes uma única palavra.

diz em bom português,
sê meiga, assim
sê gentil, por fim
mostra-me uma janela que não abra.

meu afecto,
minha modéstia,
meu discurso,
minha alma.


leva e vende-a rapidinho.
não me deixes mais a cozinhar
não me deixes em sossego mesquinho

não me fales punhais, sem levar pelo menos um
guardado nos lábios.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Viva La Revolución!

Ao meu irmão Pedro, na Argentina,

Camarada Pedro, ganhámos! A Capital de Cristóvia é nossa!
Após meses nas nas montanhas de Havara, a passar todo o tipo de privações, a um passo da sodomia masculina colectiva, os defensores do socialismo-marxista venceram a luta! Hasta La Victoria, Sempre!
Os últimos 4 anos foram terríveis. Ainda me lembro de quando éramos um bando de adolescentes introvertidos, mas que ainda assim se conseguiram organizar à volta do estandarte do comunismo, e protestar contra a Ditadura de Batistério Fulgaz. O nosso líder, o brilhante orador José Pablo, entusiasmou-nos com o seu discurso revolucionário, e cedo organizamos um partido, que foi logo reprimido pelos órgãos ditatoriais. Mais uma vez, as palavras inspiradas do nosso camarada Pablo iluminaram os nossos corações, e decidimos partir para o exílio. E assim foi que 50 jovens universitários partiram para a selva, decididos a lutar contra o regime armados com a palavra do comunismo, e assim foi que nos equipámos apenas com algumas roupas e levando cada um o Livro Vermelho de Mao e o Manifesto Comunista do camarada Marx.
Infelizmente, de pouco nos valeram as palavras de alento do Camarada Pablo, pois ao fim de 4 meses na selva tropical, e sem qualquer tipo de preparação militar ou de sobrevivência, e visto que a maior parte dos membros do Partido Comunista para a Libertação de Cristóvia era asmática, éramos já apenas 40, e estávamos a ficar sem mantimentos após termos devorado em conjunto o último Manifesto. Fiquei desde aí com o cargo de Provedor-Geral da Revolução Cristóvana, e tal cargo me fez muito orgulhoso durante várias semanas, até ter descoberto que era apenas o cozinheiro do grupo.

Como a situação se tornava gradualmente insustentável, e os homens lidavam agora com o grupo de mercenários contratados pela CIA, que havia negociado com Batistério Fulgaz a nossa aniquilação em troca da cedência aos EUA do monopólio sobre os sumos de laranja, resolvemos entregar-nos ao inimigo.
Qual não foi o meu espanto quando a Guardia nos disse, após nos interrogarem com a ajuda de cilícios e cnutes, que o Ditador Fulgaz nos queria ver. Conduziram-nos aos pontapés por toda La Villa Nueva até à sede do Partido Único, que também era o Palácio do Governo de Cristóvia, casa de Fulgaz e dos seus 13 irmãos, 2 esposas e 26 concubinas. O Ministério da Educação, o edifício coberto por ouro maciço ao lado do Palácio do Governo, era o lar dos seus 60 filhos.
Enquanto nos sentenciava uma leve pena de 145 anos de prisão, e pena de morte por esfolamento ao nosso líder Pablo, reparei que ainda tinha no meu bolso, que não tinha sido revistado pela Guardia visto que estes apenas tinham descoberto no nosso arsenal 3 fisgas em más condições e uma raquete e achava que éramos um bando de desprezíveis ratos, uma pequena granada-de-bolso soviética. Pertencera a um carregamento que os camaradas sovietes nos tinham enviado, mas que viera em tão mau estado que causara a morte a 6 camaradas quando estes se lembraram de abrir as caixas de munições para as AK-47. E assim, sem pensar duas vezes, atirei a granada para cima da secretária de Fulgaz, e esperei pelo resultado. O Ditador, desesperado, resolve atirá-la para o outro quarto, onde os seus sobrinhos faziam uma rave party com vodka altamente alcoolizado.
Metade do Palácio explodiu. No rebuliço, o Ditador Fulgaz ordenou o ataque das suas tropas, mas com a confusão estas ouviram as coordenadas erradas e atacaram o acampamento dos mercenários da CIA, fazendo-os desistir. Os Generais decidiram assassinar Fulgaz devido ao facto de estes ainda não os ter promovido a Generalíssimos, e entraram em conflito imediato com o patronato, que fabricava as armas do exército.
Em duas semanas, a oposição capitalista tinha-se aniquilado, tal como dizia o Manifesto do Camarada Marx. Encontrei o nosso amado líder agachado atrás de um balcão de mercearia, numa inteligente política de "aguardo pelo decorrer da situação". Quando as coisas se acalmaram, levei-o a tremelicar pela rua cheia de buracos das bombas até ao Palácio do Governo e "sentei-o no poder", à espera das suas ordens para o início do regime marxista-leninista.
Como estava lívido e altivo o nosso Mestre! Com a sua sábia mão, acalmou os nossos espíritos, e disse: "O Povo ainda não está preparado para os benefícios do marxismo-leninismo. Ele deverá aguardar!" E depois disso, autoproclamou-se Monarca Absoluto da Ilha.
Eu ainda sou o Provedor-Geral da Revolução! Junta-te a nós meu irmão, vamos apoiar o Movimento de Monarquia Absoluta Provisória enquanto não chega a Primavera Socialista!

Hasta La Victoria!

domingo, 1 de junho de 2008

amo-te woody

Aconteceu uns 10 dias após a publicação do meu artigo sobre a possibilidade de Jesus Cristo ter sido uma mulher que recebi aquela chamada. A princípio pensei que era mais uma ameaça de morte, e preparei-me para desligar.
Do outro lado falavam-me em francês, e foi muito estranho, pois estávamos em Paris.
Perguntou-me se podia falar comigo, era uma voz de mulher. Eu perguntei-lhe quem ela era, e ela disse-me que tal relação se relaciona consigo mesma e tem de ser constituída a si própria. Eu compreendi logicamente que ela estava a citar Kirkegaard, e combinei encontrar-me com ela no "DuBois de Paris", algures em Paris. Nessa altura estava com a renda atrasada em quase dois meses, e com a guerra prestes a assolar a Europa, isso era considerado algo sobejamente negativo. Tinha negociado com o senhorio pagar a a minha renda com textos meus, que ele poderia editar em qualquer jornal da cidade como sendo dele. Acabou por não me dar nenhuma resposta em concreto, além de me ter partido o nariz em 3 sítios diferentes nesse exacto instante, por isso fiquei à espera da sua anuência.
Como em todos os meus encontros com mulheres, levava comigo um livro de Dostoievski, na esperança de conseguir o mítico sexo fácil que o autor proporcionou a todos os intelectuais do mundo.
Ela estava sentada na esplanada, bebericando uma cerveja alemã, magra e cabelo curto, (ela, não a cerveja) muito branca e usando um vestido negro comprido (isto sim, a cerveja). "Olá. podemos realmente conhecer o significado da vida?" era uma pergunta exasperante. "Relaxa miúda" Já é tão difícil perceber o que o Siza Vieira fez na baixa do Porto, quanto mais toda uma pergunta universal? Pedi-lhe para ir mais devagar comigo, e ela resolveu mostrar-me um seio, o que teria sido agradável não estivéssemos nós numa cidade prestes a ser invadida pelo exército nazi.
"Que merda é esta? Se eu soubesse que tinha sido para isto que me tinham convidado, teria ficado em casa"
- E que farias tu em casa? Mais alguma teoria? Mais alguma mentira?
- A que te referes?
- Tu sabes. A tua teoria.O envolvimento do banco federal na morte de Deus. A relação impetuosa de David Hume com o seu guarda-chuva, e todo relativismo daí associado. O meu nome é Marguerite.
Não podia acreditar no que ouvia. Ela falava sobre trabalhos que eu não tinha ainda publicado. Perguntei-lhe o que ela queria de mim, e se me podia pagar o café, visto que o empregado estava especado desde o início da conversa à espera que nós fizéssemos o nosso pedido.
"Quero que partas para África comigo" as raparigas de Paris são sempre as que tem mais sardas, e isso dá-lhes um poder perceptivo inimaginável.
"Eu sou só um rapaz de Direita português," disse-lhe, "o máximo que posso fazer é cantar uns faditos e discutir Kafka". E ela esbofeteou-me depois de eu mencionar Kafka, escondendo finalmente o seio. Tomei aquilo com um sinal, e fui com ela para África. Aterrámos em Timbuctu, também conhecida por Vila Pouca de Aguiar, e dormimos juntos lá. Durante três semanas viajámos numa característica caravana de comerciantes tunisinos, e durante esse tempo eu tocava todos os dias na minha guitarra, para os homens que viajavam connosco uma cantiga que havia aprendido nos meus tempos de amores de estudante, chamada Amores de Estudante, até que chegando ao fim das três semanas os tunisinos cansaram-se e levaram-me atrás de uma tenda e tentaram fazer-me engolir a viola, enquanto juravam que até à 6º geração não voltariam a ouvir fados estudantis. Felizmente fui salvo por uma tempestade de areia que causou 7 baixas, duas delas sendo camelos.
"A realidade têm necessidade de essência, sendo que esta é um pouco mais pequena que a que Hobbes descreveu" disse-me ela.
- Que se foda isso, Marge, as pessoas estão a morrer, porque me levaste para aqui?
- Eu tenho de saber...
- Hobbes era um idiota, que ficou depressivo quando descobriu que não era São Lucas.
- Mas se Descartes diz que"penso logo existo" e isto não passa de...
-Sim, tal como disse Allen, não passa de um aforismo para "Eh! Vem aí a Edna com um saxofone", mas tudo isto está a ficar muito semelhante ao livro dele!
Marguerite desistiu de tudo nesse instante. Fugiu do acampamento e refugiou-se algures em Cáceres, Estremadura Espanhola. Eu apanhei o avião mais rápido para sair daquele local, e esse desespero saiu-me caro. Esqueci-me de averiguar sobe o verdadeiro paradeiro de Marguerite, e o primeiro avião que saia de Timbuctu era curiosamente um que fazia escala em Nova Gales do Sul, Austrália.
Quis dizer-lhe que o ser (Ser) independente de definições teleológicas de existir (Existir) estava separado dessa necessidade (Necessidade), que tal relação (Relação) não se auto-constrói, exige tempo (Tempo) e quem sabe tomates (Tomates). Mas ela fugiu.
Mais tarde descobri que se tinha reservado à devassidão moral, e só acasalava com homens chamados Hernando, e morreu a dançar o fox strot durante a visita oficial do príncipe das Astúrias a um parque temático.

Fomos uma geração queimada. Marguerite morreu com pés cansados e uma dívida de 70 francos a uns tipos da FedEx por causa de um piano.Todas as noites sonho que um tigre verde, com o nome Marguerite tatuado nas espátulas, me assalta duranto o sono e devora-me os genitais, o que me estraga a noite.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

domingo, 25 de maio de 2008

terrorismo blogosférico

tem aparecido nas caixas de comentários de bloggers da FDUP um link irritante e infinitamente repetido:

http://sociedadededebates.blogspot.com/

é aconselhável ir dar uma visitinha e ver do que se trata e quem são os meliantes chatos que fazem isto.

domingo, 18 de maio de 2008

take me out

Estou a ficar um blogosférico maníaco. Confesso que gosto de me "sentir lido", de sentir que as minhas palavras se podem valorizar mais do que numa simples conversa, que a troca de ideias a que eu me proponho é capaz de atingir uma audiência muitas vezes maior da que eu poderia imaginar conseguir. No entanto, é um prazer que vai e vem. Ultimamente o III Anónimo tem vindo a receber uma data de visitas. De certa forma isso deve-se a uma fase da minha vida, a um texto que eu escrevi, à minha opinião e à forma como a decidi revelar. O que me deu um novo ânimo, se bem que eu sei que dez comentários por post é um acontecimento prestes a dissipar-se. O que não tem mal algum. Estive para acabar com este blogue, e centrar-me num só para comentários e textos políticos. Não o vou fazer, vou continuar com os meus textos livres.
A verdadeira razão de toda esta conversa, prende-se com um facto que me deixou muito babado, que está ligado a um bebé muito pequenino, talvez muito pretensioso, a um projecto muito jovem e cheio de esperanças. Sempre que eu vejo que esse bebé é comentado, fico irracionalmente feliz.
E isso aconteceu num blogue de um "amigo" nosso, de um comentador usual desse bebé-blogue, o Há Discussão. Segundo ele, autor de um bom blogue, colega de uma faculdade mais a Sul, na antiga capital do Império, o nosso blogue é uma visita aconselhada, algo a ter em conta. Eu noto nisto um pequeno crescimento, mas um primeiro passo válido. Espero muito que este projecto se mantenha. Acho que é uma mais valia nossa, uma dádiva à faculdade, aos nossos colegas, a nós próprios.
Passo a citar: "um blogue de estudantes da Faculdade de Direito do Porto que aborda variados temas, tendo-se sobretudo focado em questões políticas, em posts escritos com elevada qualidade (em termos de Língua Portuguesa e do próprio conteúdo). É um precioso fórum de discussão. Aconselho vivamente!" é mesmo!

Como cheguei mais cedo a casa do que estava a pensar, e vou passar um sábado à noite miserável, resolvi fazer uma pequena selecção de textos deste blogue, que eu penso ser uma ajuda aos que recentemente o descobriram e ainda não lhe deram devida atenção. Aproveito assim a tal data de visitas que tenho recebido, antes que o fluxo se esgote.

o lado fixe da cimeira : primeiro texto sério e composto de todo o blogue, e como resposta a esse texto, o seguinte, do Francisco Noronha.
a questão africana: talvez o remate desta discussão, a última palavra da minha parte acerca dela.
entre florença e roterdão: mais um texto meu (que favoritismo) mas para aplacar a cena, com menção ao texto do Henrique Maio, outro colaborador do blogue. Vale a pena ver toda a discussão que se fez à volta de Erasmus e Maquiavel, com as participações tanto do Francisco Noronha como da Daniela, se não me engano, participantes desta tertúlia filosófica.
democrático ou anti-democrático: primeiro texto da Daniela, sobre a nova lei sobre os Partidos Políticos.
Sarkozy, o génio político: texto do Henrique Maio sobre Sarkozy. (é difícil linkar as respostas em texto do Francisco, visto não terem título, mas é de considerar também, claro.
entre acção e o resultado: resposta minha à polémica "Sarkozy-Bruni"
e outro sol no novo horizonte: o melhor texto que eu creio ter feito em toda a minha vida.
era uma travessa de SNS: texto da Sara Morgado, poucas intervenções, muitos comentários.
europa: a crise da esquerda: texto meu, com interessa a posterior resposta do Noronha.
reminiscências: um óptimo texto do Francisco Noronha, aquando de um renascimento da temática do aborto.
sobre o aborto: a minha resposta.
coincidências: o mais comentado.
quem é a oposição?: meu texto.

e está assim, curtamente elaborada, um resumo do que temos vindo a fazer este ano, realizado num momento de pura "no-life" minha.

sábado, 17 de maio de 2008

pay every pence

bellum omnium contra omnes(ou O Manifesto dos Dentes Cariados)

No seguimento dos meus últimos posts, muita gente ficou muito indignada.
De certa forma, ergueram-se as forças vivas contra mim de uma forma pouco habitual, porque eu sou um rapaz pacato, e todo o tipo de sarilhada barata que me possam arranjar dispenso. Gosto de sarilho caro, e sinceramente malhar em algo como a praxe pode fazer muita gente feliz, muita gente furiosa, mas é muito pequeno, muito básico para mim.
Devo assumir assim a total e completa culpa no rebuliço que causei, com todas as honras daí subjacentes, e explicá-lo. Tanto pró-praxistas como anti-praxistas indignaram-se contra os meus argumentos, à excepção talvez da Daniela, essa jóia de rapariga, que espero eu um dia case comigo e crie assim os futuros reis de Portugal. Tanto antis como prós indignaram-se com as minhas palavras de suposto ódio radical, como se eu me tivesse tornado de repente um revolucionário, num novo Miguel Sousa Tavares.
Notei, com tal força que não tinha notado até agora, que na minha Faculdade de Direito há uma enorme necessidade em manter o pó rasteirinho, há uma enorme necessidade de deixar as coisas como estão, mesmo que estejam sujas. Ia fazer uma piada muito óbvia com o edifício da associação de estudantes, mas é demasiado fácil, demasiado básico, mais uma vez.
A discussão à volta da Praxe não é nova. Não inaugurei nada de novo. No entanto, penso ter tido alguns privilégios de exclusividade no que toca à abordagem do assunto.
O que está escrito está escrito, o texto é definitivamente meu. Não quero no entanto que se torne num manifesto anti-praxe, nem muito menos quero-o adaptado por algum movimento anti. Reflecte antes de mais duas linhas de pensamento minhas: a primeira parte do texto, a "que começa bem", sobre aquilo que eu penso que é uma praxe, ou o que devia ser. A segunda, "a que acaba mal", sobre aquilo que eu identifico como a forma como a praxe da Faculdade da Rua dos Bragas agiu. Tenho a certeza que farpalhei em todos, e generalizei imenso, e magoei inclusivamente pessoas que não mereciam ser atingidas, rectificando, que não se deviam sentir atingidas, mas que infelizmente no fogo cruzado e por causa da natureza do assunto em questão se viram enrodilhadas e confundidas com os criticados em questão. Compreendo perfeitamente, mas isto é a blogosfera, e coisas assim saem todos os dias.

Os gregos tinham um dito que um homem de sucesso deve saber quando parar. Parar para ver os erros cometidos. O único erro que cometi até agora foi não ter criticado com igual dureza os órgãos que estão fora da praxe, e que contaminam a faculdade. Que são muitos.
Resta-nos muito pouco a não ser respeitar a praxe, e agora parto pela posição moderada. Tal como afirmei anteriormente, eu só piso os calos quando mos pisam também. E mesmo aí, hesito.

Não guardo nenhum ódio e ressentimento à praxe, pelas razões óbvias: não é saudável odiar por tudo e por nada, e porque é uma organização estudantil. A Praxe nasce de uma vontade, e essa é a vontade dos estudantes. E essa vontade é sagrada, pelo menos no limite da faculdade. Esta foi uma mensagem endereçada aos anti.
Por muito que essa vontade seja perpretada, em certos casos para não generalizar, por pessoas cheias de si, pessoas demasiado orgulhosas cuja pedagogia nem sempre é a mais correcta, ou quase nunca, é um assunto totalmente diferente. Isto já é endereçado aos prós. Eu falo da praxe porque já lá estive. Logo, tenho um mínimo tendencialmente razoável para falar dela. O que não invalida que quem nunca lá tenha andado não fale dela! Temo no entanto que fale dela por ser um esquisitinho, ou um anti-praxe declarado, alguém que se torna um paladino dos pressupostos dos lugar-comuns. EU tomo a seguinte mentalidade em relação à praxiture: Experimentei? Sim, claro. Não gostei. E agora? Agora sigo o meu caminho, que a praxe a mim, mal não me faz (por várias razões: sei kung-fu, judo e trago sempre comigo uma moca de Reguengos com picos)
E muito menos, me parece fazer mal aos outros. Os que lá andam parecem bem contentes e alegres com o que fazem, se calhar bem mais do que eu.
Agora, o que não me posso abster é de reagir quando sinto que afinal, a praxe pode estar mesmo a fazer-me mal. Ou à minha faculdade. Ou às pessoas que eu estimo, que algumas delas lá andam, e por causa delas escrevi este último esclarecimento. E foi isso que aconteceu no dia do Cortejo. Esse dia, a fonte de todas as críticas que eu aqui assinalei, foi a meu ver Vergonhoso. Mas tragicamente Vergonhoso, não é um Vergonhoso qualquer, foi um embaraço enorme.
Foi talvez o culminar do meu raciocínio perante esta organização, perante o espírito deste grupo. Para mim, isto não é praxe. A Praxe nasce de uma tradição natural, e foi tornada de forma puramente positivista numa instituição. E essa instituição não representa interesses comuns, mas sim privados e sectaristas. Logo, a forma de agir para com ela é deixá-la no seu cantinho, na sua paz, na sua actividade. Não podemos esperar nada dela para connosco. O seu único dever é para com ela própria, e foi assim que escolheu ser, e ninguém pode ter nada contra isto, é uma escolha. E é isso que eu digo ao meu amigo Francisco, à Daniela, aos outros "anti". A Praxe, ou os que se arrogam falar em nome dela, que têm toda a legitimidade para tal, visto que mais ninguém se oferece para o fazer por enquanto, não é académica, não é aberta. Abre-se quando muito bem entende. E isso meus caros, é legítimo. E eu só voltarei a falar quando se abrir na altura que não deve. Quanto às razões da minha saída, Noronha, lamento ter parecido um bebé chorão, mas sinceramente te digo que saí porque estava na altura de tal. Eu sei que tu achas imensa confusão a uma posição que não passe pelo total desagravo pela praxe, mas acredita que eu a tenho assim formada, e acho que de certa forma os nossos pontos de vista acabam por nem divergir muito, ao fim ao cabo. Mas isso ver-se-à mais tarde.
Para finalizar, queria ressalvar duas intervenções, para além das que muito apreciei e agradeci: a do Ary e a da Daniela.
O Ary foi moderado, sim, conservador como ele disse, mas sereno. E parece muito mais acostumado à conversa de blogues que muitas das pessoas que simplesmente deixaram a tampa saltar. E não penso, ao contrário do que se disse, que foste incipiente. Sensato, talvez um pouco irritantemente neutral, mas incipiente é muito exagerado.
A Daniela, porque defendeu os seus pontos de vista fortemente, de forma bem estudada, simples e directa.

Contando que tudo esteja bem exposto, frisando que isto não é um pedido de desculpa, mas um simples argumento, um pouco extenso, de que o que está escrito não é pura escrita destrutiva, termino assim o texto. Todos os pontos me parecem devidamente elucidados, e a minha posição muito clara. Não considero a Praxe, nem esta nem a da maioria da UP, uma legítima sucessora da de Coimbra. O seu próprio carácter forçado retira-lhe esse direito.
Não considero a Praxe isenta de julgamento. Apesar de tudo, é algo que levará sempre o nome da FDUP, e enquanto estudante da FDUP, é do meu alto interesse ver o nome da minha faculdade bem representado. Logo julgo, logo critico. E podem vir pavonear toda a sua libido de traje, que eu nem ligo. O que mais preciso é de material para escrever.
Podem chamar a Praxe de fascista, machista, elitista. Eu nem concordo muito. A mim basta-me considerar o seguinte: eu escolhi reger-me por regras que eu possa escolher, que me pareçam racionais, que não me imponham obstáculos de escolha, não por achar esses obstáculos idiotas, por muito que alguns o sejam, mas porque simplesmente sou assim. Eles escolheram outra via. E fica por aí.
Muito obrigado pela leitura.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

excomungatio

um aviso antes de ler este texto aqui em baixo, a actual major atraction deste sítio.
antes de mais, para todos os que vão ler e comentar, a resposta que deixei ao Hugo, que bem se pode ver nos primeiros posts deste blogue, mas que tive de contextualizar para este caso.
aqui vai:


Hugo, (neste caso geralizado, irados elementos praxistas)

não encontras no texto nenhum dos clichés normais.
nem sequer me aproximei do fascismo, porque acho um argumento pouco correcto, de todo a praxe é possível de definir como fascista, a meu ver.

1º não tens de discutir praxe com quem lá não está.

2º não tens de discutir praxe com quem nada dela percebe, mas este é o meu blogue, e eu escrevo o que eu quero, nem tem de ser o que eu penso! mas o que eu quero. e mais, duvido que aja por aí muita gente a dizer que "percebe" o que é a praxe. eu só disse que a entendi. é um meio sinonimo.

3º eu não deixo de respeitar ninguém. limito-me a classificar formas de agir. se amanhã eu vir que a praxe fez algo extraordinariamente bom e útil e alvo de admiração, eu escrevo com todos os adjectivos. no entanto, pelo que eu vi, principalmente na cerimónia, tenho de despejar todos estes adjectivos e mais uns sinónimos.

4º não sinto orgulho em chamar os outros de idiotas, mas às vezes é preciso fazê-lo.

5º no entanto, não te chamei de idiota

6º conheço a praxe dos outros sítios sim, inclusivamente muito bem a praxe de medicina, de letras e direito de Coimbra. tenho familiares praxísticos, e eles não são idiotas,penso. logo não generalizo nem as praxes em geral de idiotas, nem muito menos os elementos da praxe da faculdade de direito.

7º resumindo Hugo: não generalizei, não usei lugares-comuns baratos, não empurrei o nome de alguém na lama, pelo menos injustificadamente, nem sequer me comprometi com um posição anti-praxe. tanto porque não estou para compromissos, como não estou para cenas anti, é muito fatela.

8º passa a ler os meus textos com a mesma atenção que lês os comentários da Maria João, caso queiras comentar justamente, claro.

9º reafirmo algo, que é o seguinte. este é o meu espaço inter pessoal, na blogosfera. ou seja, eu escrevo o que quero, não tem de ser o que penso, mas o que quero. logo escrevo, nem que seja para praticar a escrita.

10º e último. contando como aviso aos elementos praxísticos, que virão ler e reclamar e tentar fazer-me a folha:
10.1 - eu sei kung fu
10.2 - eu sei judo
10.3 - eu trago comigo todos os dias uma moca de Barcelos muito grande

e por último do último, e mais importante:
leiam isto talvez como um aviso daquilo que pensam de vocês lá fora, não como apenas uma gabarolice contra vocês, nada tenho contra vocês. só quando me pisarem os calos, eu pisarei os vossos. pelo menos tento.
Leiam isto, como um protesto da falta de representação que vocês deviam dar, não da vossa praxe, mas da vossa Casa.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

de ratio praxis

Uma das praxes mais discutidas e vulneráveis a movimentos anti da universidade do Porto é a praxe da Faculdade de Direito da Universidade do Porto. É uma praxe dolorosa do ponto de vista psicológico, físico, exige muita participação e disponibilidade, traz certas responsabilidades que absorvem na quase totalidade todos os que a aceitam.
Eu tenho orgulho dos momentos que lá passei, e não me arrependo deles ou sequer me proponho trocar de recordações. Conheci duas das pessoas por quem tenho mais apreço naquela praxe, e muitas outras com quem me dou bem. Acima de tudo, nutro por muitos dos meus antigos camaradas de praxe uma confiança difícil de abalar.
Por muito que seja difícil compreender estes pontos de vista, por muito irracional que pareça privilegiar uma amizade nascida na pura e voluntária adversidade, há certas explicações que podemos usar. A praxe não é um fenómeno inquestionável, nem inexplicável. Não é um elemento de fé. Acontece, é um laço humano. O seu problema, a pedra base que lhe falta, o fundamento ideológico que estraga todo a quadro desta pintura pretensiosamente espartana e árdua, é uma completa falta de noção de tradição que realmente exista, que realmente se justifique. A praxe da faculdade de Direito é uma criação recente, inspirada numa inspiração do que terá sido porventura a praxe de Coimbra.
Licurgo disse que as leis duras unem os Homens. Quanto mais severo for o regime de um estado, quanto mais estóico e exigente, simples e despido de complexidades, mais fortes são os homens.
Daí Licurgo ter criado uma das sociedades mais características da História, a sociedade espartana. É bastante óbvio que é um fenómeno destes que une o elemento praxístico. É a dureza das suas leis, a facilidade com que se criam situações em que a nosso dever é olhar pelo colega do lado, é atravessar tudo junto.
Este é talvez o objectivo mais nobre de toda a praxe, senão o único. Ou seria, não fosse a causa porque se faz isto mesquinha e trivial, na maioria dos casos.
Pedem-nos para sofrer, para aguentar os insultos e as ofensas, para nos unirmos forçadamente ao companheiro do lado, com apenas um fim. O de poder fazer o mesmo para o ano que vem.
Mas isso é somente uma escolha, algo irrisório, que infelizmente se revelará no carácter dos futuros praxistas.
Arrependo-me de ter saído da praxe a uma semana do fim, por muito que já lá não pusesse os pés há mas de 4 ou 6 semanas. Arrependo-me porque se soubesse teria saído no último dia, antes de atravessar a tribuna. Não me considero anti-praxe, mas tenho agora graves e sérios problemas com a praxe da minha faculdade. A cena representada no cortejo, em que os representantes da praxe da faculdade de direito deixam passar os finalistas sem qualquer tipo de companhia, sem qualquer amostra de solidariedade, mostra muito bem o que serão ou já são a nova geração de praxistas desta Escola de Direito. Uns idiotas egoístas.
Um pequeno bando de idiotas egoístas que resolveu galardoa-se a si próprio com um traje que não respeitam, com ideais demasiado nobres e incompreensíveis para os seus propósitos mesquinhos de gastrópode. Uma bacoquice de todo o tamanho, para resumir.
O traje é algo tão académico, e algo tão pessoal, que devia ser proibido aos idiotas legalistas usá-lo, porque impor leis nalgo estudantil, é como impor um limite máximo no consumo de álcool durante a queima, um limite no número de vezes que se diz "despedida" nos fados académicos, um limite nas vezes que um estudante de direito diz "merda" e "a doutrina diverge". As leis fazem-se para os Homens, não são os Homens que se moldam para caber dentro delas, se bem que certos membros da praxe cabem incompreensivelmente dentro dos trajes, anafados como estão das suas manias sebosas.
Eu mereço o meu traje. Não por o ter feito debaixo das vossas regras, mas porque provei a mim próprio que sei viver com elas, que são as infelizes leis do mundo, que vocês tanto gostam de representar. O que me difere é o facto de as querer mudar. Porque é isso que eu não tenho de igual para com a praxe. Eu não me altero, eu altero aquilo que me rodeia, pelo meu simples agir de ser humano, de cidadão. A verdadeira praxe não cria uma barreira de prerrogativas e leis obtusas e velhas, antes constrói uma muralha de homens, de universitários, uma muralha que se considera igual não pelas cores da roupa mas pela vontade de se superarem pelo mérito e pela agudeza de espírito, sem corromper ou humilhar a dignidade do camarada de estudos, de vida, de tristezas, de fados. Uma praxe distingue-se pelo exercício do intelecto dos seus. Nunca pelo simples arrotar de doutrinas e lenga-lengas patetas. Não são os abraços de bêbado, os momentos calorosos de traje amarrotado que vos tornam, caloiros do mundo, finalmente iguais e superiores, capazes de ser considerados gente entre os outros Pares da Praxe!
É antes o que vocês fazem durante todo o ano, o respeito que mostram para com os vossos verdadeiros iguais, que são todos os que lá andam, desde o sr.Ferreira da portaria, até ao Conselho Científico da Faculdade.
Querem igualdade, democracia? Querem sentido de presença, de pertença, de fraternidade? Comecem com a vossa família, e façam dos vossos novos companheiros uma família.

Após tanto tempo na praxe, pude finalmente sair convencido que aprendera o que ela era. Percebi a essência, e se essa essência não entrou em mim foi por uma simples razão.
Se me mantive ignorante perante os ensinamentos da praxe, digo com todo o orgulho que sim, pois não aceito nenhuma das vossas leis.
A questão está de todo este assunto está no respeito que a Praxe poderá dar à Faculdade, visto que esta tem sido representada com honras por pessoas que resolveram viver em harmonia com a muy amada liberdade académica.

terça-feira, 13 de maio de 2008

já agora, vale a pena pensar nisto

os autocarros são os Gulags da sociedade capitalista

segunda-feira, 12 de maio de 2008

domingo, 11 de maio de 2008

manifesto anti-sóbrios

leiam o que eu fiz durante a Queima das Fitas na blogosfera:
aqui!
"Religiosos com vinho no sangue que atiram preservativos a colegas da Universidade Católica." (esta foi a mais gira delas todas)

"E como não podia deixar de ser, as conversas jurídicas e outras que tais num local onde supostamente nada deveria ser feito a sério, refúgio para certos monárquicos que foram tomados por bêbados devido às suas ideias."

"tomados por bêbados devidos às suas ideias", frase mítica e profundamente lírica que vai prsenciar provavelmente num dos blogues mais lamechas do país.

agradeçam à Daniela Ramalho Fidel Lenine, conhecida como a "lenina" lá na FDUP, e na FLUP também, ao que diz o texto. é autora de um blogue, o "Bocas que discordam comigo vão para o Gulag"

25781 Manuel Pinto de Rezende

assinem.

muppet show



presidenciais americanas 2008

breathe in

o III anónimo vai-se revitalizar, após algum tempo de paragem. a série Shamisen vai continuar, mas por enquanto fazer-se-à uma pequena pausa.
alguns textos novos vão aparecer, mas agora com mais direcção para alguns temas. outro projecto blogosférico já está na mesa, e a cozinhar :)

bons estudos

sexta-feira, 18 de abril de 2008

shamisen


(parte III) NAMBANJIN

Garcia aproximou-se então de Tanamori, procurando uma conversa mais descontraida entre os dois. Tinham percorrido os corredores da casa em ameno diálogo, mas Garcia sentia-se agitado e impaciente. A vontade de vingar aqueles que vira morrer não aplacara, e os calmos ares de inverno já não sortiam nele a alegria de estar vivo.
Questionou Tanamori sobre sua identidade e porque o tinha salvo, e soube que fora Tanamori que havia falado com os padres Jesuítas que tinham contratado os seus serviços. A princípio pensou que ele os tinha emboscado, mas percebeu que tal não faria sentido, visto que Tanamori não só o tinha salvo, como precisava muito dos seus serviços. Tanamori era um leal servidor do imperador, que ainda era um jovem rapaz. Nas suas viagens pela China e pela Coreia, ouviu falar de um povo de raça branca que havia aportado por aquelas bandas há poucos anos, e que regularmente fazia umas visitas não raras vezes clandestinas. Depois, esse mesmo povo chegou a Nagasáki, e falou-se por todo o Japão que os brancos altos e narigudos, nambans do sul, nambanjin como ficaram conhecidos, possuiam poderosas armas de fogo e mestria impar na condução de navios no mar, que tinham bem aparelhados e artilhados com as mesmas armas. De forma a derrotar os seus oponentes, e unir o Norte do Japão em nome do imperador, Tanamori conseguiu falar com homens religiosos desse povo. No entanto, mal estes haviam chegado, um exército dos seus inimigos do clã Hideyoshi seguiram a sua caminhada desde a cidade de Nagoya, o porto que dá acesso ao norte do Japão, e massacraram-nos, apenas falhando em roubar as suas armas e bagagens, socorridas a tempo pelos homens de Tanamori.
- Pena que se tenham apenas salvo os haveres, e perdido os homens - ressalvou Garcia - ter-te-iam sido de grande valia nas lutas que virão.
- Não te escondo a minha alegria, estrangeiro, por teres sobrevivido - Tanamori falava sem excessiva alegria, sempre moderadamente - Em nome do imperador, os serviços dos da tua raça serão compensados em ti. Agradecia que ensinasses os meus homens a usar estas armas como os teus usam. No entanto, compreendo que estejas triste e cansado. Não te obrigarei a ficar aqui. Pagar-te-ei o regresso a Nagoya, onde ficarás hospedado às minhas custas enquanto esperas por um dos barcos do teu povo. O que não deve tardar, pois os teus são conhecidos pela Ásia fora como uma raça de gentes inquieta e amaldiçoada pela vontade de navegar, de perder terra e morrer no mar. Por grandes guerreiros e sábios que sejam, custa-me a crer que um povo navegante e difícil de contentar se poderá governar e manter tão bem como o nosso, pacífico e sereno. Tenho aqui algo que deverás gostar, no entanto.
E apresentou-lhe um farrapo branco, no entanto limpo e cuidado, onde se podia ver as armas de Portugal. Garcia ficou comovido com o gesto de Tanamori, e curvou-se para agradecer o magnânimo gesto. Era de facto uma prenda gloriosa, honrada. Disse-lhe que esta era a bandeira do seu país, dos seus reis e das suas cidades, dos seus exércitos e navios, uma bandeira que lhes havia sido dada por Deus, segundo as lendas, mal sabendo Garcia que a razão das quinas é puramente monetária e arrogadora de direitos.
- Também no Japão os guerreiros têm particular amor pelas suas bandeiras, morrem por elas. Significam a honra dos seu senhor e da Casa desse senhor.
- Em Portugal, a bandeira é de todos, e tanto é o símbolo do Rei, como da res publica, do povo e dos senhores, dos homens de religião e das raças, povos e credos que sobre ela vivem em paz. Tanto é o seu significado, que fala-se de um português que perdeu os dois braços a defender a bandeira e só a perdeu porque lha arrebataram dos dentes, para depois esta ser de novo recuperada numa investida quase suicida de um cavaleiro nosso. Eu já a servi muitas vezes. Fiz coisas por ela que não faria noutras situações. Ela une-nos, mesmo para as más acções. Tal como todas as bandeiras, daymio.
- Fala-se do orgulho dos teus, um orgulho ainda assim não ofensivo para os outros.
- É o que nos distingue dos castelhanos, meu senhor.
- Não conheço esses homens, nem nunca ouvi falar deles. Estranho que sintas esse orgulho no teu povo. No Japão, o Imperador é Homem e Deus. Ele une o Sol e a Terra, e todo o Japão vive sob a sua égide de paz. Ou pelo menos assim deveria ser. Ele cuida dos seus filhos, e todos no Japão têm direito à sua dignidade devido à sua acção civilizadora, e todos têm direito a viver e a morrer na sua terra. Porque é que o teu Rei obriga os seus a morrer longe de casa? A lutar e degladiar-se longe de casa, esquecendo a casa dos seus antepassados? Porque é que o teu povo navega e comercia, em vez de plantar a terra, cultivar os templos, amar a família e a harmonia, honrar-se a si e aos filhos? A morte cruel dos teus seria impensável ao Imperador do Japão, pois este nunca deixaria que os seus filhos partissem numa missão arriscada e sem possibilidade de honrar os mortos.
- É esta a vontade do meu povo, senhor. Escolhemos o nosso líder, batemos os nossos inimigos, criamos a nossa cultura, e vivemos do mar porque ele é o nosso amigo. E somos unidos debaixo de um estandarte, por muito que sejamos diferentes e rivais, estamos unidos na adversidade. Os teus, no entanto, lutam entre si, na própria casa. Isto nunca aconteceria entre o meu povo. Derramar sangue irmão é pecado. Lutas por um imperador que dizes ser Deus, pois eu vi esse imperador em Kyushyu e ele era uma criança. Como podem homens viver em paz debaixo do seu governo?
- O imperador é o Japão, Garcia. Se ele é jovem e inconsciente, também o é o Japão. Quando ele for mais velho e sábio, o Japão será uma nação forte e estável como nenhuma outra. Compreenderás o Oriente, um dia. Há muito que vocês Portugueses cá andam, mas não nos perceberam. Os Ocidentais são severos arrogantes, e só a si chamam a razão. Não conseguem ver que no Oriente, as aparências enganam, e há mais numa flor do que meras pétalas e sementes.
- Senhor Tanamori, em muitas coisas somos iguais, e teríamos sido bons amigos caso não houvesse milhas infinitas de mar a separar-nos. Gostaria que aceitasse os meus serviços e o meu mister de soldado ao serviço da tua nobre causa.
Tanamori assentiu, com benevolência e serenidade, ao pedido do português. Ensinou-lhe os métodos de combate usados naquelas terras, e com quantos homens poderia contar por batalha. Também lhe ensinou como se comportar em sociedade, inclusivamente à mesa, pois os rituais naquelas partes diferiam dos do Sul Japonês, que era mais conhecido de Garcia. Dotou-o de armadura e de armas, que Garcia achou perfeitamente bem desenhadas, e cedo começou a formação do sobrevivente nas artes da espada japonesa. Em troca, Garcia, ensinou os ferreiros de Tanamori a fabricar os arcabuzes, as armas que os portugueses usavam, e iniciou a construção de um exército de arcabuzeiros entre os samurais, a quem treinou de acordo com as técnicas portuguesas, as mais eficientes e modernas da época.
O grande objectivo seria dar combate aos Hideyoshi, assassinos e execráveis rivais da Casa de Taina, e derrotá-los definitivamente com a sabedoria das armas e da tecnologia, retirando da obscuridade e do isolamento larga parte do Japão nortenho e rebelde às ordens imperiais.
Assim começou a história de Garcia Rodrigues, natural da antiga cidade de Lamego, das mais respeitadas da Península, e moço da Casa de Ataíde, que serviu desde os 14 anos na armada da Índia por não achar no serviço de um senhor honra suficiente para um mancebo. Viveu em Goa, em Luanda, viajou por muitos e perigosos lugares, tendo sido distinguido durante o terrível cerco de Diu, onde se bateram com bravura os portugueses. E como entre a vida e a morte, já disse o poeta que mais serviu a causa do Império, todos os dias são dele, esta é uma das muitas histórias que Garcia Rodrigues viveu, antes de fechar em si o livro da existência.

quinta-feira, 27 de março de 2008

shamisen


(parte II)Sakura

"Meu nome é Tanamori, do clã Taina. Eu sou o chefe desta casa e tu, gaijin, és o meu convidado. Nada deves temer enquanto cá estiveres."
O samurai falava de forma directa e limpa, honrando os preceitos da sua nobre casta, ao mesmo tempo reconfortando o seu hóspede.
"O meu nome é Garcia Rodrigues, da casa dos Ataíde, e sou da cidade de Lamego, no distante reino de Portugal. Ou pelo menos ainda o era quando de lá saí. Compreendes o que eu digo?"
"Dominas a língua deste país como poucos nambanjin antes de ti. Já me tinham falado da perspicácia dos bárbaros, e vejo que não eram apenas rumores. Poucos homens sabem dominar a língua tão bem como a espada, se bem que eu diria que enquanto a tua língua é uma fénix voadora, o teu uso da espada ainda não passa de um fruto por colher."
Garcia soube nesse momento que o homem com quem falava o observara, podia até ter estado comprometido com o ataque que ele e a sua comitiva haviam sofrido.
Acompanhara uma comitiva de 11 homens, recrutada em Goa, a chamada Gloriosa Roma do Oriente e cidade dos vice-reis. Essa comitiva era composta por um goês e 10 portugueses, 2 deles padres jesuítas, líderes da expedição, que tinham requisitado o serviço dos restantes, considerados os melhores mestre-espadas do império da Ásia, como seus acompanhantes e guarda-costas. Segundo os padres, tinham sido convidados por um grande senhor do país dos Japões para partilhar os seus conhecimentos de pólvora e das coisas da guerra. Não fosse a terrível emboscada que tinham sofrido, e talvez tivessem cumprido essa missão com sucesso.
"Estávamos em grande falta de números contra tais inimigos, distinto senhor. Fomos atacados por gentes armadas com chuços e pequenas espadas. Perdi muitos e valentes companheiros de viagem. Aquele que me derrubou durante o combate permitiu que eu não visse o desfecho da trágica batalha, e não sei do paradeiro dos poucos que sobreviveram ao ataque surpresa."
"Quando eu lá cheguei, todos estavam mortos". Garcia mostrou-se apreensivo. "Vejo que tinhas companheiros entre os que se perderam naquele dia..."
"Mais do que meros companheiros, eram meus bons amigos. Entre esses homens vinha Mestre Julião, muito conhecido nas Índias pela sua perícia da espada e do mester de físico. Ele e vários outros serviram comigo no famoso cerco de Diu."
"O Japão está muito longe dos sítios de que falas. A meu ver, perderam-se homens que passaram por grandes dificuldades e eram dignos de grandes honras. O que é algo lastimável, visto que padeceram às mãos de gente baixa, ladrões e ronin baratos."
"Ronin?" perguntou o português.
"De certeza que deste país só conheces as gentes e expressões das cidades. Um ronin é um samurai caído em desgraça, que perdeu seu amo e não teve a coragem de cometer seppuku, em honra dele. Por vezes são até muito hábeis no manejo das armas, mas a sua pobreza de espírito vale-lhes o baixo estatuto que têm entre nós, e são contratados como meros servos para trabalhos sujos que um verdadeiro samurai não é digno de fazer. Presumo que entre vocês também se dão tais acontecimentos."
"Não, não sei bem a que te referes. Sei que já vi fidalgos de grandes famílias servir nos regimentos e nos terços de infantaria como o mais comum dos vilãos. Entre nós portugueses a superioridade de qualidade das gentes não é soberba, como no caso dos castelhanos e dos do reino de França, se bem que nos últimos anos, dizem os mais velhos, a tendência tem vindo a se comparar em orgulho e desprezo entre os nobres."
"Na nossa terra, ser nobre é ser servidor dos mais fracos, não é algo de que nos devamos vangloriar, mas antes estimar e sentir orgulho."
"Ainda há grandes portugueses que também assim pensam, daymio Tanamori, mas no Ocidente cada vez menos são os humildes. Talvez agora possas tu me responder a algumas das minhas questões."
Tanamori estacou por breves segundos, sem contudo perder a compostura. O Estrangeiro estava em seu poder, e era agora hóspede da sua casa. No entanto, estes bárbaros de raça pálida pareciam-lhe excessivamente curiosos e atrevidos para compreenderem o ritualizado cerimonial do Oriente, e a sua falta de paciência, além de proverbial, era acompanhada de uma argúcia de espírito fantástica. Tanamori começava então a admirar tanto o homem que tinha à sua frente, como a tomar cuidado com o que lhe poderia desvendar.
"Dir-te-ei aquilo que me parecer apropriado dizer, nambanjin."

nota: esta pequena história, inspirada num pequeno livro de lendas japonês, adaptada à nossa língua, ao nosso contexto histórico e cultural, e à minha imaginação, é o projecto definitivo a que se vai consignar este meu blogue. no interesse da divulgação das culturas do mundo, vou tentar proliferar estes meus pequenos trabalhos, e espero que com isto vá aguçar a curiosidade dos visitantes.
acompanho com esta nota um pequeno dicionário de expressões, para que quem leia se vá direccionando, e de algumas noções e curiosidades.

gaijin - nome dado pelos japoneses aos estrangeiros. a sua utilização tem se rareado, devido ao facto de recentemente esta designação ter ganho valor perjurativo.

nambanjin - nome dado aos portugueses pelos japoneses, significando bárbaros do sul.

Japões - nome primitivo dado pelos primeiros viajantes portugueses aos habitantes da ilha nipónica.

cerco de Diu - episódio importantíssimo da presença da civilização europeia no subcontinente indiano, o cerco de Diu chama-se assim por se ter situado na cidade de Diu, onde uma pequena força de 500 portugueses aguentou, por duas vezes, um duro cerco de meses. Essas acções de guerra foram tomadas ou pelo imperador mogol da Índia, ou pelos turcos otomanos, inimigos da presença portuguesa na Índia.

Mestre Julião - personagem real, herói do primeiro cerco de Diu.

daymio - espécie de senhor feudal no Japão, os mais poderosos tinham ao seu serviço milhares de samurais, o equivalente aos cavaleiros da Europa Medieval.

seppuku - prática comum entre os samurais, de cometer suicídio para não perder a honra tribal.

vilãos - no sentido do texto, e contextualizando o sentido histórico, não deve ser entendido como alguém apto para actos vis, mas sim alguém cuja classe se encontra entre os não-privilegiados, ou seja, do Povo.

terça-feira, 4 de março de 2008

shamisen


(parte I) LÓTUS

Uma fresca brisa de madrugada entrava por entre os biombos, acordando-o docemente dos lençóis de linho branco. Levantou-se com um jeito desajeitado, cambaleando confusamente para fora do quarto. Lá fora sentia-se o Inverno de Janeiro nas cerejeiras em flor, com leves pinceladas de branco e de castanho, num sereno sentido de sossego, adornando o jardim.
Percorreu o corredor de soalho castanho, apoiando-se no corrimão de madeira e nas finas colunas, até às escadas. Desceu-as vagarosamente, e pousou os pés descalços na terra fresca, brincando com o orvalho da relva por entre os intervalos dos dedos. Apetecia-lhe ajoelhar... estava quase nu ao frio, ligado por faixas brancas nos ferimentos das costas e do peito, que deitavam um perfume acre de urze ou qualquer outro tipo de curativo, e vestia um saiote de lã negro que lhe tapava as pernas até às canelas. Ispirou fortemente todo o ar, e apreciou o leve aroma do jardim. Estava cansado ainda. E sem saber onde se encontrava, o velho sentido de exploração levara-o quase involuntariamente a procurar ar fresco para respirar. Certos homens não são feitos para camas, já lhe dizia a mãe. Ele não o fora. Aos 14 anos fugiu de casa e embarcou na primeira nau que encontrou. Sabia-lhe melhor a rede de dormir do marinheiro que a cama do cortesão.
Assustou-se com um aconchegado toque nas costas, e virou-se custosamente para trás. Aí, um homem vestido com um kimono branco envolvia-o num cobertor de peles.
"Vejo que acordaste" disse o homem."Sim", respondeu-lhe em nipónico, a língua do homem, "estou a falar com o meu generoso anfitrião?" e o homem fez-lhe sinal que o seguísse. Lá dentro alguém tocava um intrumento de corda, e ouvia-se uma voz feminina a acompanhar o recital. Devia ser uma professora a repreender a sua aluna, pensou. "Perdoa a minha jovem filha, gaijin, ela ainda está a aprender a tocar o shamisen." Então era assim que soava o shamisen, o famoso instrumento que tanto lhe falaram em Nagoya. Não lhe importava nada os desafinos da jovem, mesmo tocado impropriamente o som produzido pelo instrumento era belo.
Foi convidado a sentar-se e a tomar a refeição, e seguiu os modos dos habitantes da casa de sentar à mesa. A sala de jantar estava rodeada de uma aura de serenidade, e tons claros de beje e escuro. Sentou-se à direita do homem do kimono, enquanto as suas filhas se sentaram à sua esquerda, de acordo com uma etiqueta já há muito integrada. A mulher e as três filhas eram pequenas de estatura, se bem que elegantes, usavam todas, à excepção da mãe, o cabelo preso, que esta usava solto e pujante, de um escuro brilhante extremamente liso. Estavam vestidas com simplicidade, vestindo-se à japonesa, com um kimono comprido mas despadronizado, de cores simples branca e azul. Não esboçaram nenhuma reacção à presença do estrangeiro.
Comeu frugalmente, com o receio de desagradar ao dono da casa, e em profundo silêncio, tal como toda a família presente no jantar. A atmosfera de equilíbrio e harmonia reinante ajudaram-no a recompor os sentidos, e os seus músculos perderam a rigidez com o perfume inebriante do incenso e do saké.
Após o fim da refeição, todos se levantaram ao sinal do homem do kimono, e foi ordenado a uma das mulheres da casa que cuidasse das comodidades do convidado.
Dentro de um pequeno compartimento, a jovem encarregada, porventura uma das criadas da casa, despiu-o suavemente, quase sem lhe tocar com os dedos, e substituiu-lhe as gazes e as ligaduras. Estava pronto em menos de meia-hora, já com o gibão posto e o saiote. Quis expressar gratidão para a mulher, mas esta partiu apressadamente do quarto.
Sentia-se preso. Não sabia onde estava, perdido num mundo diferente, à mercê de um senhor poderoso da região. De um daymio, um senhor feudal japonês, titular da vida de centenas, senão de milhares de guerreiros.
Passos dirigiam-se para o seu compartimento, avançando lestos e sem demora. Preparou-se.
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